04 novembro 2012

Imigração para o Brasil no século 21

Interessante o tema de redação do Enem deste ano. Mas a pergunta é: alguém ensinou isso a eles?


Curioso o tema da redação do Enem: "O movimento imigratório para o Brasil do século 21". Eu teria ido bem já que por motivos pessoais estudei bastante este assunto. Mas e os jovens do ensino médio? Na minha opinião a imigração internacional em geral é um assunto muito pouco discutido e menos ensinado. A começar pela chamada "grande imigração", aquela que a partir do início do século 19 trouxe mais de cinco milhões de pessoas, na maioria europeus, para o país. O que dizer então da atual, assunto que só tem sido discutido nos cursos de pós-graduação? Acho interessante exigir isso dos nossos jovens - mas a pergunta é: alguém ensinou a eles?

A imigração do século 19 costuma ser tratada como se fosse um tema à parte da história do Brasil e da história em geral. Raramente se lê que este processo fez parte de um processo muito mais amplo, a transposição de mais de 50 milhões de pessoas do Velho Mundo para as Américas, dando assim um novo sentido à colonização do Novo Mundo.

Em relação ao Brasil o processo começou mais tarde, na segunda metade do século 19, e também estendeu-se por mais tempo. Após a Segunda Guerra, nos anos 1950 e 1960, muitos imigrantes continuaram a chegar, de forma que os historiadores costumam dizer que este ciclo se inicia em 1870 e termina por volta de 1970. Mas o movimento de população através de nossas fronteiras não chegou a se extinguir, de forma que mal findo o anterior começa um novo ciclo, em que há brasileiros indo para fora, sobretudo para Estados Unidos e Europa, e por outro lado, começa a se perceber a chegada de bolivianos, chineses, coreanos e outros grupos.

Hoje os estudos sobre imigração estão passando por uma interessante revisão. Os livros mais recentes começam lembrando que o homem sempre foi um migrante. Nossa história, afinal, começa há uns 200 mil anos atrás, quando saimos da África. De forma que antes de sermos humanos já éramos migrantes. O caso do Brasil não é diferente: acredita-se que os índios que aqui viviam eram descendentes de fluxos migratórios que, vindo da Ásia, através do estreito de Bering e da costa do Pacífico, chegaram ao que hoje chamamos América do Sul há uns 20 mil anos atrás.

Por outro lado, o fluxo de pessoas é um dos eixos da globalização. Pessoas, capitais, bens e serviços circulam pelo planeta como nunca antes na história. Portanto é a própria noção do que é imigração, do que significa migrar, que está sob revisão, a medida que quanto mais olhamos para trás e para frente, mais percebemos que migrar é a regra e não a exceção. Os homens apenas aparentam estar "fixos" em algum lugar quando tomamos um período de tempo relativamente curto. De resto, somos todos imigrantes.

Era isso que era pra responder?

21 junho 2011

No jardim das bestas

Um livro muito interessante que acaba de sair é In the Garden of Beasts: Love, Terror, and an American Family in Hitler's Berlin, do Erik Larson.

É sobre William Dodd, um professor da Universidade de Chicago que em 1933 se viu, um pouco por acaso, na posição de embaixador dos EUA em Berlim. Um especialista em história do sul dos Estados Unidos e democrata amigo de Roosvelt, ele recebeu com alegria a indicação imaginando que teria algum tempo livre para escrever seu livro definitivo sobre o velho sul, intitulado justamente The Old South.

Mas Berlim entre 1933 e 1934 não era exatamente um retiro tranquilo para um embaixador. Dodd não só presenciou a Noite dos Punhais Longos, um espetáculo de violência e horror, como de certa forma protagonizou o episódio, ao lado dos embaixadores da França e da Inglaterra.

Faz parte da função de embaixador se relacionar com autoridades do governo; essa, na verdade, é sua essência. Mas o que fazer quando se percebe que o país mais desenvolvido da Europa foi tomado de assalto por um bando de frios e cruéis assassinos? Esse foi o dilema vivido pelo embaixador Dodd na de outra forma fabulosa Berlim dos anos 30.

Um democrata jeffersoniano convicto, que a partir de 1933, e principalmente depois de 1934, se vê na situação de ter de se relacionar com gente como Hitler, Himler e Goring, Dodd é o fio condutor de uma trama que se passa no centro de Berlim, perto do parque principal da cidade (daí o título 'No jardim das bestas').

O brilho da Berlim dos anos 30, e as nuvens cada vez mais cinzentas que sopraram sobre a cidade, e depois o país, o continente até engolfar o mundo todo, é o cenário desta trama macabra, que é ainda mais inacreditável por ter sido real.

21 março 2011

Obama no Brasil

Não sei porque tanto auê com o fato do Obama ter mandado atacar a Líbia enquanto estava visitando o Brasil.

Afinal, faz parte da rotina de qualquer presidente americano mandar lançar uns misseizinhos em algum lugar do Oriente Médio, semana sim, semana não.

Não é só porque 'o cara' estava visitando o Corcovado com a mulher e as filhas, seguido de 'feijoada do Obama' em Cidade de Deus, que ele vai deixar de cumprir suas tarefas como presidente dos Estados Unidos.

E hoje em dia não é preciso mais ficar sentado no escritório, atrás do telefone, para trabalhar. Como muita gente, Obama também tem celular. O problema é que o dele não faz roaming internacional. Então, segundo ouvi de fontes murmurantes, ele foi até uma loja da TIM e tentou pegar um pós-pago, que como se sabe, é mais barato.

Na hora de preencher a ficha, depois de pegar a senha e ficar quase uma hora na fila, a coisa enroscou na hora de preencher o CEP. "Mas como não tem CEP na sua rua moço?", perguntou Tatiana, a representante da empresa. "Moro na Casa Branca. Não tem CEP lá", respondeu Obama. "Então não vai dar, Obama", disse ela. (Elas sempre perguntam o nome da gente pro tratamento ser mais pessoal). "Porque o senhor não pega um pré-pago? Tenho um modelo muito bom da Nokia".


Obama pegou o Nokia, que tinha, como explicou a  moça, MP3 e câmera fotográfica. "Ótimo", pensou o presidente. "Vou poder fotografar o Cristo Redentor". Mais tarde ele ligou para o general de plantão no Pentágono, e disse: "General, qual é mesmo o país árabe que vamos atacar desta vez? Estou aqui no Brasil, tomei umas caipirinhas, e não lembro bem se é Líbia, ou Líbano... Enfim, começa com L..." E o general: "Vou verificar senhor, só um minutinho..." Passou-se muito tempo porque o "sistema caiu". (Sim, até no Pentágono acontece... Não é so na Net e na Telefônica). Tanto, que acabou a carga do pré-pago. Um assessor teve de ir até uma banca de jornais na Avenida Atlântica pra comprar um cartão de recarga.

Não foi o único problema de Obama com as telecomunicações em sua visita ao Brasil. Diz que o Air Force One, quando estava descendo no Rio, sofreu intereferência de uma rádio pirata, que afinal como você sabe se ouve a Bandeirantes, é crime.

Já em pleno procedimento de aterrisagem o piloto ouviu pelo rádio do avião presidencial a seguinte transmissão: "Aqui quem fala é Mano B7, transmitindo diretamente da Favela do Socorro pra galera da geral. Alô pessoal do Alemão, F2 manda avisar que a mercadoria já chegou. E agora você fica com Zeca Pagodinho e Ivete Sangalo".

O resto é história.

13 fevereiro 2011

Haddock ou Gulnara? Personagens de Hergé são mais divertidos que os de Assange

No meu artigo de hoje publicado no Aliás, suplemento de domingo do Estadão, uma comparação entre as personagens das aventuras de Tintim, e as reveladas pelos vazamentos do WikiLeaks, de Jules Assange.

Por alguma razão, os artigos do Aliás não aparecem no portal do Estadão na internet (apenas na edição digital). No post seguinte, você pode ler a edição original do artigo, antes dos cortes que foram feitos por motivo de espaço.

Usei para o artigo o livro Tintin - The complete companion, de Michael Farr (jornalista e tintinólogo inglês), o documentário Tintin and I, do cineasta dinamarquês Anders Østergaard, as edições das aventuras de Tintim da Cia. das Letras, e as minhas antigas, puídas, rasgadas e desbotadas edições em português de Portugal, lançadas no Brasil nos anos 60 pela Flamboyant.  As novas edições da Cia. das Letras foram traduzidas pelo Eduardo Brandão.


12 fevereiro 2011

WikiLeaks como literatura? Prefiro esperar o Tintim do Spielberg

Muito do furor sobre a divulgação das mensagens reveladas pelo WikiLeaks estão relacionadas ao suposto estrago que a exposição de material altamente sigiloso poderia causar nas relações internacionais. O vice-presidente americano Joe Binden chegou a denunciar Julian Assange como um “terrorista high-tech” e não faltou quem pedisse seu indiciamento por traição, espionagem e conspiração.

No entanto, como notou Ken Silverstein, autor de Turkeminscam, um livro sobre os lobbys políticos de Washington, o material do WikiLeaks vale mais como literatura, um repertório de detalhes sobre a vida mundana dos muitas vezes patéticos personagens da política e da diplomacia. “As mensagens secretas revelam mais sobre a vaidade humana do que sobre o balanço do poder no Oriente Médio”, escreveu o jornalista, que se deu ao trabalho de ler minuciosamente os relatórios, atrás de material para seus próximos livros.

Enfim o material vazado pelo WikiLeaks tem muito mais potencial para aparecer numa novela de um candidato a Graham Greene ou Patricia Highsmith, do que a servir de munição para um Bin Laden cibernético.

Em outras palavras: os personagens revelados pelo Wikileaks não tem estatura moral para encenar sequer uma aventura de Tintim, o jovem repórter das histórias em quadrinhos de Hergé que chegarão ao cinema pelas mãos de Steven Spielberg até o final do ano. Haveria entre as personagens reveladas nos telegramas sigilosos alguém a altura de Madame Castafiore, do Capitão Haddock ou do Professor Girassol? Duvido. Aláis, além da extraordinária semelhança física, Tintim e Jules Assange tem esta persistência de tentar estar sempre ao lado do bem – embora um problema universal do ser humano seja que nem sempre sabemos de que lado o bem está. As personagens de Hergé, aliás George Remis, o desenhista belga que levou Tintim muito além do mundo dos quadrinhos, estão bem acima, em caráter, humor e humanidade, do que as do WikiLeaks.

Que tal  Gulnara Karimova, poderosa primeira filha do presidente Uzbequistão, Islom Karimov? Os vazamentos do WikiLeaks revelaram que “ela fez aparecer na mídia uma série de artigos promovendo suas virtudes”. Bem, bastaria acessar a Wikipedia, a enciclopédia pública prima do Wikileaks, para ler que a moça é uma self-promoter que se define como “ativista social, empresária, designer de moda, cantora e diplomata”. Atualmente, ela ocupa o nada desprezível cargo de Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária na Espanha. Enfim, a moça faria qualquer membro da família Sarney corar de vergonha.

Mas se é pra saber história de clã político, com nepotismo e tudo mais, fico com o Maranhão, não preciso do WikeLeaks: deixaria de lado a vida de Gulnara Karimova (que segundo os diplomatas americanos “conseguiu se meter em praticamente todos os negócios lucrativos do país, das telecomunicações à distribuidora local da Coca-Cola"), e aguardaria os muito mais interessantes personagens das aventuras de Tintim.

Não que Hergé nunca tenha se interessado pelo submundo político dessa terra de ninguém que parece ter caracterizado a Europa do Leste desde todo o sempre, uma zona cinzenta até mesmo pelos critérios da geografia, já que suas fronteiras costumam mudar incessantemente com o tempo e a história. Em O Cetro de Ottokar, por exemplo, o jovem repórter e seu valente e inseparável cachorro Milu salvam a Syldavia, um  obscuro país escondido entre a Bulgária e a Hungria, de cair nas mãos dos fascistas. Escrito antes da Segunda Guerra Mundial, a aventura antecipava a anexação da Áustria pela Alemanha nazista – só que com um final feliz. Em uma das últimas cenas, Tintim (acompanhado de Milu) é recebido em palácio, a pompa e circunstância enfatizadas pelo típico realismo dos quadrinhos de Hergé em um ambiente altamente sofisticado – e que fariam Gulnara Karimova babar de inveja.

Mas não é esta aventura que Spielberg escolheu para iniciar sua relação com as aventuras do jovem repórter. Pelo menos não por enquanto, embora o cineasta já tenha comprado os direitos para novas incursões no mundo de Tintim, que serão também um outro marco na sua carreira: serão suas primeiras produções digitais. A primeira delas, que deve estrear em outubro, é a formidável trilogia formada por O caranguejo das pinças de ouro, O segredo do Licorne, e O tesouro de Rackham, o terrível. 

Trata-se da história (originalmente distribuída em três livros) onde aparecem pela primeira vez dois personagens: o Capitão Haddock e o Professor Girassol. O primeiro, um experiente lobo do mar, com seu temperamento irascível, seu conhecimento enciclopédico de impropérios, e um problema com bebidas. Já o Professor Girassol, surdo como uma porta, tem a habilidade de guiar os amigos com sua incontestável genialidade, embora raramente entenda uma única palavra do que lhe dizem ou do que está acontecendo. O capitão e professor passariam então a fazer parte integral da família, aparecendo na maior parte das histórias de Tintim (junto com os irmãos gêmeos, os tão inseparáveis quanto incompetentes Dupont e Dupond).

As circunstâncias políticas também marcam o contexto da aventura, embora pelo negativo: com a Bélgica ocupada pelos nazistas, Hergé teve que inventar uma história que fugisse de qualquer possível referência que pudesse ser feita com a situação política da época, daí a opção por uma história na qual Tintim e seus amigos partem em busca do que seria o tesouro perdido por Sir Francis Haddock, o grande navegador e antepassado do Capitão Haddock.

Não há neste primeiro Tintim que Spielberg escolheu para filmar nenhuma referência à política. É bom porque a questão do racismo no Tintim não passa de um mal entendido. É verdade que nas primeiras histórias o repórter revela um racismo ingênuo.  Ma na sua fase madura, em que em parte em reação as críticas, mas em parte também a sua trajetória de vida, e seu amadurecimento intelectual, Hergé se torna mais e mais um relativista, mostrando as culturas não-ocidentais sem os estereótipos racistas. As aventuras de Tintim no país dos soviets é típico da literatura anti-soviética de antes da guerra. E Tintim no Congo é francamente racista e colonialista. Mas Hergé mostrou que entendeu os erros que cometeu ao longo da vida, e os corrigiu. sua obra oferece assim uma interessante aula sobre a evolução das idéais raciais. “Gosto muito do Tintim”, diz a antropóloga Lilia Schwarcz, professora da USP. “Penso que os primeiros livros, sobretudo aqueles que se passam na África são profundamente racistas. Mas eles espelham a ideologia em que Hergé vivia, e um contexto em que as teorias raciais eram ainda dominantes”. O processo de mudança operado no próprio escritor ao longo da suas aventuras, do racismo das primeiras ao politicamente correto das posteriores, é do maior interesse, diz Lilia, especialista em estudos raciais. “Ele acompanha as oscilações nas teorias do período. Vale a pena ler os livros, portanto, até como documento de época; além deles serem grande arte e diversão”.

As personagens de Hergé extrapolaram em muito o mundo dos quadrinho e capturaram a imaginação de jornalistas, como o tintinólogo inglês Michael Farr, autor de Tintim – The complete companion, a mais autorizada fonte de informações sobre o assunto, de documentaristas como o dinamarquês Anders Høgsbro Østergaard, autor de Tintim and I, feito de uma série de entrevistas colhidas com o desenhista no início dos anos 70, e de antropólogos. Já vendeu milhões e milhões de exemplares, em dezenas de línguas. Agora, atraiu também a atenção de Steven Spielberg, uma glória que não está a altura dos personagens de Assange. Na cerimônia do Oscar do ano que vem, garanto que Tintim e seus colegas serão convidados de honra. Gulnara Karimova não.

08 fevereiro 2011

Brecht e o bigode de Hitler

Pode-se dizer o que for a respeito de Bertold Brecht. Mas o homem tinha um jeito com as palavras. Mais que isso, ele enxergava coisas óbvias, mas que passam desapercebidas para a maioria dos mortais. Um exemplo célebre é sua observação sobre Hitler:  "Um bigode tão pequeno... Para uma boca tão grande..."

Com uma simples ironia, Brecht sintetiza a contradição fundamental deste sinistro personagem, sobre quem muito já foi dito. Mas jamais tão poucas palavras disseram tanto.

Personagem contraditório também foi o próprio Brecht. Alex Ross, em seu O resto é ruído, conta que ele não deu crédito a algumas parcerias com Kurt Weill. E era dado a arroubos de veleidade. Conta-se que durante o período em que ficou exilado na Califórnia, escrevendo roteiros de filmes B para Hollywood, ao se identificar num hotel como Sr. Brecht, o porteiro pediu para que soletrasse o sobrenome, o que não é nada fora do comum, até mesmo porque o "echt" gutural típico do alemão não existe em inglês. "Como?", teria se exaltado o dramaturgo. "Você não sabe como se escreve meu nome? Pois saiba que ele está escrito ao lado do de Goethe e de Heine, entre os grandes nomes da literatura alemã..." Enfim, nada modesto nosso amigo.

03 fevereiro 2011

O Lada espacial e o meu

No domingo saiu um artigo que escrevi no caderno Aliás, do Estadão, chamado O Lada espacial que apavorou os EUA. Era sobre o Sputnik. Um leitor mandou um e-mail reclamando que fui injusto com a ciência espacial soviética. O leitor tem razão. O erro, no entanto, não foi meu: provavelmente foi um exagero do editor ao bolar na pressa o título. Mesmo porque, confesso: eu tive um Lada...

Não que o Lada fosse ruim, apenas que, vamos dizer assim, seu projeto não estava nada adaptado ao clima tropical. Na Sibéria, acredito, talvez ele tivesse se dado muito bem. Até mesmo na maior parte do território russo, onde a temperatura média é de zero graus centigrados.

O problema é que meu artigo tocou justamente neste nervo exposto: o aquecimento...

O Lada era como o socialismo soviético: bom na teoria, mas não funcionava na prática. Pelo menos não na do verão paulista de 1992, quando comprei um. O presidente de então havia dito que os carros nacionais eram umas carroças velhas. Acreditei. Comprei um usado, vermelho. O carro fazia muito sucesso na época entre taxistas porque já vinha com caixa de ferramentas no porta-mala. Mal sabiam eles quão útil seria...

Logo de saída foi dando problema de super-aquecimento: era a ventoinha, claro. Na Sibéria, ninguém sequer notaria. Mas no verão paulista ela fazia falta. Fui a concecionária e fui muito bem atendido, com cafezinho, tapinha nas costas e tudo mais. Enquanto isso, na oficina, os técnicos faziam uma gambiarra secreta: ao invés de substituir a ventoinha defeituosa tinham apenas parafusado uma hélice no eixo do motor. Ventoinha nova, aparentemente, só depois do próximo plano quinquenal onde anotariam: "Mandar 48.994 ventoinhas para Brasil".

Outro problema foi o do super-aquecimento, desta vez interno: o botão, que tinha apenas duas posições, "dacha" e "sibéria" quebrou no sibéria. Enfim, o carro aquecia por dentro, aquecia o motor, e a situação só piorava em congestionamentos. O carro fora projetado para a Sibéria onde qualquer aquecidinha é milagre de São Petersburgo. Era outro o santo. Era São Paulo. Era verão...

Outra coisa que chamava atenção era o cheiro. Sim, um certo cheiro de peixe. Era como se, ao trazê-lo da Rússia, o carro tivesse caído do container no canal de Santos, e nunca mais tivesse sido lavado. Muito depois, lendo o relato do correspondente do Financial Post no leste europeu sobre a experiência dele com Ladas e Traubas é que entendi. No início dos anos 80 tomou o poder no Perú um grupo de militares de esquerda. A União Soviética não só apoiava o regime peruano como ainda comprava sua produção de peixe. Zelosos da necessidade imperiosa da produtividade, os russos aproveitavam até os resíduos para fazer cola de farinha de peixe, e a utilizavam para a colagem de estofamento de veículos. Era daí que vinha o cheiro.

Enfim, com a abertura comercial a indústria nacional reagiu e acho que alguém chegou a dizer "carroça por carroça, fique com a nossa" de forma que troquei o Lada por um Gol. Tropicalizado.

Um amigo publicitário chegou a bolar um slogan, uma asinatura como tem a Nike, a Sony, e todas as grandes marcas internacionais: "It's a Lada". Não sei porque não pegou.

Por isso, compartilho a revolta do leitor com o título e o espirito da matéria, e venho por meio desta me penitenciar, e me denuncio a mim mesmo como um mesquinho que trocou seu heróico carro soviético pelo falso conforto burguês por uma versão pós-tropical de um carro produzido por  uma multinacional alemã. Por muito menos que isso, muita gente boa, inclusive o coronel Sergei Korolev que projetou o R-7, o foguete que colocou o Sputnik em órbita, foi parar na Sibéria.

04 janeiro 2011

Vandré e Aracy

Geraldo Vandré conta, pela primeira vez, que ficou escondido na casa de Aracy Guimarães Rosa

Em entrevista ao programa Dossiê GloboNews, do jornalista Geneton Moraes Neto, o cantor e compositor contou pela primeira vez que ficou escondido na casa de Aracy Guimarães Rosa no início de 1969, depois do AI-5, quando era procurado pelos militares. O programa foi ao ar em setembro de 2010.

Parte desta história foi contada aqui mesmo neste blog, mas é a primeira vez que Vandré admite publicamente o fato. (Veja o post para saber mais sobre a história de Aracy e do seu apartamento no Arpoador, no Rio, onde Vandré ficou escondido durante um mês: http://caiotulio.blogspot.com/2008_06_01_archive.html)

Trecho da entrevista:

É verdade que você ficou escondido na casa da família Guimarães Rosa antes de ir para o exílio ?

Vandré: “Eu saí de circulação. Depois que o tempo foi passando, as coisas vão ficando claras: as Forças Armadas propriamente ditas não tinham nada contra mim. Não tomaram nenhuma iniciativa contra mim. Quando fecharam o Congresso Nacional, no dia 13 de dezembro de 1968, eu estava indo para Brasília para fazer um espetáculo.Evidentemente, suspendemos o espetáculo. Vim de carro – guiando – até São Paulo. Eu estava à mão das Forças Armadas….Nunca deixei de estar. Mas claro que algo poderia acontecer: ao andar à toa pela rua, eu poderia de repente encontrar um “guardinha de trânsito” que quisesse fazer média. Há sempre alguém que quer tirar proveito de situações assim. Para evitar, saí de circulação. Durante um tempo, estive na casa de Dona Aracy (viúva de Guimarães Rosa – que tinha morrido meses antes). Fiquei lá porque, quando vinha para o Rio, como não tinha casa aqui, sempre ficava na casa de amigos e de pessoas conhecidas”.

A íntegra da entrevista está em:
http://tinyurl.com/379bnhr


Veja fotos inéditas do apartamento do casal Guimarães Rosa:
http://tinyurl.com/2e63a75

27 dezembro 2010

Bom Retiro, anos 80

O visionário Vilem Flusser e um ensaio fotográfico sobre o bairro judeu

Eu estava acabando a faculdade e não sabia ainda se queria ser jornalista ou fotógrafo. Era 1981 e o grande Marcos Faerman editava o caderno de cultura da Shalom, prestigiada revista judaica cuja dona e diretora era a Patricia Finzi Fingerman.

Era uma revista progressista, como se dizia na época, e em plena ditadura militar levemente de esquerda. Era independente, pacifista, e corajosa: criticou a invasão israelense do Líbano e foi a favor do movimento Paz Agora desde o início. Pagou caro por isso: fechou ainda no começo dos anos 90.

A redação ficava no coração do Bom Retiro, em plena rua da Graça. O editor era o Jaime Klintowitz (hoje um dos editores-executivos da Veja). Por ali passaram nomes como Alberto Dines, Gilberto Dimenstein, Caio Blinder, entre outros. O diretor de arte era o Carlos Clemen, artista argentino bem conectado, particularmente com a nata da vanguarda dos artistas argentinos exilados no Brasil.

"O buraco da Sara": apelido com um toque do sarcasmo familiar ao humor judaico, era o restaurante mais conhecido e popular do Bom Retiro


Um dia o Marcão, como era chamado por todos, me encomendou um ensaio fotográfico sobre o Bom Retiro para a revista. As fotos eram para ilustrar uma reportagem da Bety Malziner, outra que começou lá. O Bom Retiro da época era o Bom Retiro dos judeus. Os italianos já tinham saído fazia tempo e os coreanos ainda não tinham chegado. O bairro sempre foi de imigrantes, mas entre 1960 e 1980 tinha uma personalidade tipicamente judaica,com suas sinagogas, comércio típico, e principalmente, com seus personagens. Mostrei as fotos ao Marcão.

Uma confecção de bonés na rua da Graça: população tipicamente urbana, os judeus se especializaram em ocupações também urbanas, pelo menos desde a Idade Média



"Não é nada disso, tchê", foi logo corrigindo com seu inevitável sotaque gaúcho. "Você vai ali na burekita; e no Buraco da Sara, e na loja de guarda-chuva do Seu Fulano. Ah, e não esquece da Mercearia Paris". O Marcão, com sua cabeça de escritor, já tinha fotografado mentalmente os principais personagens do bairro.

E lá fui eu na minha primeira missão fotojornalística, usando a velha Laica F3 do meu pai. Depois virei jornalista, na própria Shalom, onde passei a assistente de redação. O Alberto Dines foi chamado para ser consultor e criou um conselho de redação que incluía o Antônio Cândido. Minha função, entre outras, era editar os colunistas mensais. Um deles era o Vilem Flusser. Na época sabia apenas que era um professor tcheco que tinha fama de genial ou excêntrico. Na verdade, ela era professor de filosofia do ITA, numa período em que o departamento contava com vários pensadores de ponta.

Só muito recentemente soube que o tal professor tcheco do ITA hoje é considerado um dos precursores da cultura digital. Tudo que hoje se filosofa sobre a famosa tecnologia da informação ela já discutia no início dos anos 80... Não havia ainda o computador pessoal. A reflexão dele era toda em torno da fotografia. Pensar sobre a idéia da informação transmitida de maneira visual (hoje diríamos digital, em pixels; na época sequer se falava disso) pra ele foi o suficiente para prever uma revolução tecnológica. Há muita coisa sobre ele na internet. Soube também que ele escrevia em quatro línguas, o que fazia diariamente para exercitar o cérebro... E que em algum momento teve uma fábrica de transformadores (algo que parece sensato numa época em que parte das tomadas do país era 110 voltas, parte era 220; pensando bem, parece que ele tinha alguma coisa umbilical com a tecnologia).

Editar o Flusser talvez tenha sido premonitório: mantenho o gosto pela fotografia, e a ele se misturou o gosto pelas novas tecnologias digitais. Fotografo hoje com uma câmera digital e gosto de publicá-las no meu blog. Tenho milhares, em todos os formatos, do preto & branco 35 milímetros acumulando poeira em alguma estante às milhares de digitais, espalhadas por cinco HDs externos. Como bem previu o Vilem Flusser, a tecnologia digital revolucionou a maneira como nos comunicamos. Entre outras coisas mudou a maneira como exibir nossas fotos. Na época, três destas fotos foram parar numa exposição no Beth Hatfutsoth, o museu da diáspora de Tel Aviv. Agora elas estão bem aqui, na web.



Dona Sara e suas fiéis auxiliares na cozinha do restaurante que tinha um clima bastante familiar


Numa manhã qualquer da semana, judeus fazem o serviço religioso matinal na Sinagoga da Rua da Graça


O pletzl, o lugar onde se trocavam idéias, notícias, informação. Uma espécie de FaceBook informal da época


Vendedor de cachorro-quente da rua José Paulino


A sinagoga da rua da Graça era movimentada até mesmo numa manhã de um dia normal da semana


 
Serviço religioso matinal


O pletzl, na esquina da rua da Graça com Ribeiro de Lima


Conversando no pletzl


Confecção de guarda-chuvas, negócio familiar muito comum entre judeus vindos da Europa central e do centro-leste


Um cliente compra pão na Mercearia Paris, um então tracidional estabelecimento kosher na Rua da Graça

15 dezembro 2010

Menino experimental

Murilo Mendes

(Publicado em originalmente em Poliedro, 1965)


O menino experimental come as nádegas da avó e atira os ossos ao cachorro.

O menino experimental futuro inquisidor devora o livro e soletra o serrote.

O menino experimental não anda nas nuvens. Sabe escolher seus objetos. Adora a corda, o revólver, a tesoura, o martelo, o serrote, a torquês. Dança com eles. Conversa-os.

O menino experimental ateia fogo ao santuário para testar a competência dos bombeiros.

O menino experimental, declarando superado o manual de 1962, corrige o professor de fenomenologia.

O menino experimental confessa-se ateu e à toa.

O menino experimental é desmamado no primeiro dia. Despreza Rômulo e Remo. Acha a loba uma galinha. No oco do pré natal gritava: "Champanha, mamãe! Depressa!"

O menino experimental decreta a alienação de Aristóteles. Expulsa-o da sua zona, com a roupa do corpo e amordaçado.

O menino experimental repele as propostas da prima de dezoito anos, chamando-a de bisavó.

O menino experimental, escondendo os pincéis do pintor, e trancando-o no vaso sanitário, obriga-o a fundar a pop art, única saída do impasse.

O menino experimental ensina a vamp a amar. Dorme com o radar debaixo da cama.

O menino experimental, dos animais só admite o tigre e o piloto de bombardeiro. Deixa o cão mesmo feroz e o piloto civil às pulgas.

O menino experimental benze o relâmpago.

O menino experimental antefilma o acontecimento agressivo, o Apocalipse, fato do dia.

O menino experimental festeja seu terceiro aniversário convidando Jean Genet e Sofia Loren para jantar. Espetados na mesa três punhais acesos.

O menino experimental despede a televisão, "brinquedo para analfabetos, surdos, mudos, doentes, antinietzsches, padres podres e croulants".

O menino experimental atira uma granada em forma de falo na mãe de Cristovão Colombo, sepultando as Américas.

24 janeiro 2010

Sobre o pobre B.B.

Sempre achei este poema de Brecht um pouco... amargo demais. Então resolvi dar uma, como dizer, reformada nele. Ficou assim:


Eu, B.B, venho da cidade grande.
Minha mãe me levou para Santos
Quando eu ainda estava na sua barriga.
E o cheiro do Chapéu de Sol
Me acompanhará por todas alamedas.

A selva de asfalto é minha casa. Decorada
Desde cedo com todos os sacramentos:
Jornais. A Folha. O Estado. Cigarro. E cerveja.
Barulhenta, sufocante, atrapalhada até o limite.

Sou amigável com as pessoas. Gosto da galera.
Dou um abraço em todo mundo. "E aí, como é que é, meu irrmão?"
Digo a mim mesmo: são outros animais, só que de um tipo peculiar.
E digo outra vez a mim mesmo: e daí? Por acaso também não sou?

24 novembro 2009

Apagão, o retorno - parte 2

Esta marchinha, que ouvi muito quando criança, nem precisou ser adaptada para parecer atual


Rio, cidade que me seduz
de dia falta água
de noite falta luz

03 novembro 2009

Lévi-Strauss, o homem, o mito

Fiquei triste com a morte deste verdadeiro estudioso da 'música do espírito humano'




Não sei se foi o calor senegalês nesta tarde de terça-feira, ou o quê. Mas a notícia da morte de Claude Lévi-Strauss, aos 100 anos, me pegou de jeito. "Morremos um pouco todos os dias", me vi escrevendo num email pra uma amiga, pra justificar minha tristeza.

Por que, me perguntava, não entendendo muito bem o meu estado de choque. Mas nesses tempos de Blog e Facebook não há tempo a perder: é preciso dividir a notícia com os amigos. Me apresso, portanto, em lincar para o obituário do New York Times. Como é sabido, os obituários do diário americano são conhecidos por sua parcimônia e precisão - além de nunca dispensarem o tratamento respeitoso de Ms. Isso e Mr. Aquilo.

Leio no Times algumas passagens curiosas da sua vida. Durante o período em que viveu em Nova York, diz o jornal, "ele também se tornou parte do círculo de artistas e surrealistas, incluindo Max Ernst, André Breton e a futura amante de Sartre, Dolores Vanetti. Ms Vanetti [...] costumava visitar uma loja na Terceira Avenida, em Manhattan, que vendia artefatos das ilhas do Pacífico, deixando Mr Lévi-Strauss com a 'impressão de que os tesouros mais importantes da humanidade podem ser encontrados em Nova York'".

Ler seu obituário levantou meu astral. Para os judeus, não há nada pior do que ser esquecido após a morte. Lévi-Strauss não sofrerá disso, certamente. Será lembrado por quantas gerações ainda se sucederem neste planeta que ele entendeu como ninguém.

"[A] lógica da mitologia é tão poderosa que é como se os mitos tivessem uma vida própria, independente das pessoas que os contam", escreveu ele certa vez. "Os mitos falam através da humanidade e se tornam as ferramentas para que ela chegue a um acordo com o maior dos mistérios: a possibilidade de ser não mais sendo, a própria essência da morte".

Medida de seu prestígio, o mestre francês foi homenageado pelo seu centenário em nada menos do que 25 países diferentes. Como o definiu o Le Monde, era um verdadeiro estudioso da música que pulsa por detrás do espírito humano.

06 outubro 2009

poeminha preguiçoso

é tanta coisa pra fazer
faço logo uma lista
mas logo tergiverso
tapo o sol com a peneira
e vou empurrando com a barriga

07 maio 2009

Questões candentes

"Açúcar ou adoçante?"
Decido, logo existo


Fui na padaria comprar café e açúcar - que Dona Maria não suporta adoçante. Na hora de passar pelo caixa, o inevitável: "Crédito ou débito?" Medito. Estou em dúvida. Penso longamente, pesando cuidadosamente os prós e contras, como aliás, sugere a filosofia analítica. Assumo um ar de imperador de busto romano e proclamo solenemente: "Cogito, ergo sum". A moça do caixa parece não entender: "O que é que é, sou moço?", pergunta ela, como se eu tivesse falado algo em grego. "Penso, logo existo", me apresso em traduzir, enquanto a fila se alonga e os fregueses começam a dar mostras de impaciência. "Descartes", vou logo explicando. "Em latim".

Mas a vida em São Paulo não está pra quem pratica o milenar exercício da dúvida. "Vai querer nota fiscal paulista?", insiste a moça. Não sei. Será? Tenho minhas dúvidas. Vejamos... "Não sei", respondo socraticamente. "Só sei que nada sei", digo com ar filosofal.

A fila aumenta. "Lugar de filosofia é na Grécia", diz um engraçadinho lá atrás, se aproveitando covardemente do anonimato. Resolvo dar um tempo. "Vou fazer um lanche ali no balcão, depois eu passo", explico para alívio de todos. "Assim é melhor, não é?", pergunto. "Com certeza", diz ela. Curioso: nunca houve tanta gente com tanta certeza, justamente num momento em que a filosofia, a física quântica e a psicanálise garantem que não há mais certezas neste mundo de Deus.

"Como está o peito de perú?", pergunto para o meu chapa da padaria. "Tá saindo bem, patrão". Será? Peito de perú e queijo branco? No pão francês? "Pode ser no pão de forma?", pergunto, já introduzindo, sorrateiramente, a dúvida, o desvio da norma, a subversão do padrão. "Sai um mineiro na chapa com peito de perú aqui pro meu amigo". Isso é prestígio. "E suco de abacaxi batido com hortelã e pouco gelo". Bom é ter tanta opção. Mas a escolha sempre traz em si a questão existencial da opção, da dúvida. Penso em Sartre. Lembro que no fim da vida ele sofreu de incontinência urinária. Justo alguém para quem a vida era era a arte de escolher. Sartre não podia mais decidir nem o "mijar ou não mijar?", esta dúvida existencial atávica, talvez a mais antiga da humanidade.

Encontro um amigo que perdeu todo dinheiro na bolsa e agora passa os dias na padaria discutindo futebol com o pessoal da chapa. "Como é que é?", digo a título de bom dia. "Vamos levando", diz ele sem muito entusiasmo. "Parece que a coisa vai melhorar", digo. "Será? Sei não. Desde que o Ben Madoff foi pego com a mão na botija...", afirma ele, reticente. "A gente não pode acreditar mais em ninguém..." Ele, pelo jeito, continua cheios de dúvidas. O que me leva a meditar sobre a crise econômica. E a China? E a gripe suína? Mas, divago. Do outro lado do balcão alguém me traz de volta à Terra e às questões mais candentes do nosso quotidiano. É seu Valmir, o palmeirense da chapa: "Açúcar ou adoçante?", pergunta ele. "Açúcar", afirmo depois de uma pequena titubeada inicial. Decido, logo existo.

22 abril 2009

Que horas são?

Ainda às voltas com a minha to-do-list...


Voltando do feriado, fiz nova to-do-list. 64 itens! Cansativo. Fui dormir, exausto. Hoje acordei cedo, mas não achei a lista. Fiquei lendo O resto é ruído.

Depois do almoço encontrei a lista. Mas então perdi os óculos... Achei aquele CD do Paulo Moura, re-edição do vinil, Confusão urbana, suburbana e rural.

Achei o óculos e a lista. Procuro nos meus MP3 aquela gravação da Cultura FM com o concerto para piano do Ginastera, aquele que o Keith Emerson, do Emerson, Lake & Palmer gravou.

"Que horas são?", pergunto retoricamente: já se foram os bons tempos em que era possível perder a hora. "11:33", berram, em uníssono, o Microondas, o relógio do Windows, a TV, o DVD e o rádio de pilha. Na casa da minha tia tinha um relógio grandão, de pêndulo, enorme, parecia um armário. Fazia um barulhão.

Vou na Dengosa pegar meia-dúzia de pão francês e um litro de leite. "Só sei que nada sei", respondo socraticamente ao inevitável "Crédito ou débito? Vai querer nota fiscal paulista?" emitido monotonamente pela moça do caixa. Não se respeita mais nem a dúvida.

Volto pra casa. Converso com a senhora do 1701. É mesmo, esfriou. Olho pela janela. Medito. Divago. Procuro uma citação perdida na memória. Borges. "Se apaixonar é entrar para a religião de um Deus falível". Porque eu não pensei nisso antes?

Puxa, 5 e 48? Já? Perdi a hora... Checo os emails. Apago os inúteis, maioria. Não me dei conta do passar das horas ouvindo Piazzolla. (Sim, percebi, minha alma anda meio portenha). Baixei o Piazzolla da rede. Queria baixar mais mas esqueci a senha. Tento recuperar através da pergunta. "De qual filósofo o Papa falou mal recentemente?" Bico. Aliás, uma merda este Vista. Melhor re-instalar o XP.

Revejo a lista. Me dou conta que escrevi com aquela Lammy deliciosa que ganhei de presente da Bia. Adoro caneta.

Por falar nisso, por onde ondará a Vera, irmã da Bia, linda, meiga e doce, com aqueles olhos verdes marítimos, oceânicos? Tem recado piscando na secretária. Aposto que é a Beth, secretária do Dr. Nelson, confirmando a consulta amanhã. E se eu não for? Invento uma desculpa qualquer depois.

Dou uma entrada na internet. Faço um chá de jasmin. Vejo as notícias. O cara da loja de automóveis ligou. O documento tem que ser autenticado. Passo no cartório amanhã. É no caminho do Dr. Nelson. Dona Maria pediu pra passar no super, comprar mais Cândida. Haja Cândida, Dona Maria! A lista ficou desatualizada. Melhor começar outra. Mañana, mañana. Não sou homem de ficar adiando indefinidamente as coisas. Mais ô coisa besta que é reconhecer firma de documento! O Fernando Henrique não falou que ia acabar? Falou ou não falou? Não lembro mais. Amanhã vejo isso.

24 março 2009

O homem é o homem mais as circunstâncias. E mais o seu blog...

Algumas reflexões sobre um tema de Ortega y Gasset

Nada mais atual nestes tempos pós-modernos do que a máxima do grande filósofo espanhol José Ortega y Gasset: 'O homem é o homem mais as circunstâncias'. Para Ortega y Gasset as coisas não existem sem mim e eu não existo sem elas. Não, nada a ver com o celular, o iPod e a TV de LCD.

Ele se referia mais as circunstâncias históricas. E vale lembrar que no tempo dele, o já distante início do século 20, as circunstâncias históricas ainda tinham uma conotação local, nacional, ou no máximo continental: a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a Guerra Civil Espanhola, e assim por diante.

Mas de lá pra cá as circunstâncias tem ganho um caráter cada vez mais global. O homem, hoje, é o homem e a crise econômica mundial; o homem é o homem e mais o meio ambiente global; o homem e a instabilidade política em um mundo, onde como dizem os sociólogos, há um déficit crescente de governabilidade.

Afinal, se o homem é o homem e mais o que está em torno dele, como fica sua identidade em um mundo em que fronteiras e cenários estão em movimento? A resposta é fácil: desse jeito não há identidade que fique de pé por muito tempo.

Mas enfim, comecei estas mal traçadas só porque a Carla, irmã da minha amiga Paola, aludiu ao filósofo espanhol em seu blog Carlota Joaquina. Diz ela: 'Eu sou eu mais as minhas circunstâncias'. Foi quando a Paola mandou um email cobrando que eu não tinha atualizado o meu blog.

Só então caiu a ficha: o homem é o homem. Mais as circunstâncias. E mais o seu blog.

Não satisfeito, testei algumas variações:

A torcida do Flamengo é a torcida do Flamengo mais as circunstâncias.

O homem é o homem mais o homem menos o homem mais duas vezes as circunstâncias menos as circunstâncias. (Einstein)

O homem é... The answer, my friend, is blowing in the wind. (Eduardo Suplicy)

O homem é o homem e mais suas fantasias, sonhos, neuroses. (Freud)

O homem é o homem mais o capital. (Karl Marx)

O homem é o homem mais sua coleção de vinis raros. (Ed Motta)

O homem é o homem. (Mais dez por cento por baixo do pano). (Marcos Valério)

O homem é o homem mais as armas de destruição em massa, menos dois sapatos. (George W. Bush)

O homem é o homem mais a orquestra. (A não ser que o governador pense diferente) (Maestro John Neschling)

O homem é o homem mais a batuta. (Maestro Jan Paul Tortelier)

O homem é o homem. Logo, existe. (Descartes)

O homem é o homem. Ponto. (Brecht)

O homem é o homem, mais a prefeitura, o governo do Estado e a presidência da República. (José Serra)

O homem é o homem e mais uma diretoria no Senado. (José Sarney)

O homem é o homem. Mas também poderia ser a mulher. (Roberta Close)

O homem é o homem. E eu sou apenas uma mulher. (Maria Bethânia)

O homem é uma besta. Não importam as circunstâncias. (Paulo Francis)

O homem é o homem mais as suas escolhas. (Sartre)

O homem é o homem mais o seu barato. (Tim Maia)

O homem é o homem mais o seu banco. (Barão de Rotschild)

O homem é o homem mais o rabo do macaco. (Darwin)

O ladrão é o homem mais as circunstâncias menos o homem.

10 outubro 2008

Uma tarde no museu

Repaginado, o acervo do Masp ganha vida




Fui ao Masp uma tarde dessas, a convite do Gilson Pedro, que dá aulas de história da arte ali, in loco, desde os anos 70, e que conhece o assunto como ninguém.

Ele estava mostrando a um grupo de alunos a nova organização: agora os Rafael, Rembrandt, Manet, Van Gogh, Modiglianis e outros tesouros do museu estão agrupados por temas. Além disso nada menos do que um Picasso (e mais de um Matisse) foram encontradas na reserva técnica - e integrados à exibição permanente.

O Masp ganhou vida com a repaginação. Por outro lado, as suas instalações nunca pareceram tão depauperadas. Em um dos piores momentos da sua história, o museu não tem sequer um catálogo impresso - sem falar em um site minimamente decente.

Mais curioso ainda é notar as mudanças urbanas no entorno do museu. Hoje a região abriga os tais 'promocenter', onde nada é legítimo: entre meia dúzia de mini-shoppings onde se vende tênis Nike, CDs, e tudo que pode ser pirateado e falsificado, há esta instituição que abriga um raro Rafael, pintado na época do descobrimento, aquele Manet grandão, com as moças remando para fora do quadro, e um Bosch dos mais importantes...

A repaginação do Masp mostra que sem recursos - mas com boas idéias - é possível dar vida a um museu. (A propósito, o Chagall acima não tem nada que ver com a história; ele está no Museu de Arte da Basiléia, na Suíça. Copiei do catálogo).

30 setembro 2008

Grande Sertão: Hamburgo

O roteiro de Guimarães Rosa na cidade alemã

João Guimarães Rosa viveu em Hamburgo entre 1938 e 1942, quando foi cônsul-adjunto do Brasil. Ali conheceu Aracy, que viria a se tornar sua segunda (e definitiva) mulher. Neste período, ele escreveu um diário, que permanece inédito até hoje, onde descreve alguns lugares da cidade.

Em março de 2008 fotografei alguns destes lugares. Neste vídeo, intitulado "Grande Sertão: Hamburgo" aparecem alguns dos seus principais marcos, como o Jardim Botânico, o rio Alster e a Ópera. Além disso, aparecem também as duas casas em que o escritor morou, o local onde ficava o consulado brasileiro, e a casa onde Aracy morava.

Muitos desses lugares foram inteiramente destruídos, e reconstruídos depois da Segunda Guerra Mundial. Hamburgo foi castigada pelos bombardeios aliados. Ao final da guerra, em 1945, a maior metrópole comercial da Europa continental tinha perdido quase a metade de suas edificações. Só nos bombardeios dos últimos dias de julho de 1943 quase 50 mil pessoas morreram.

Guimarães Rosa, que saiu de lá em 1942, descreve minuciosamente em seu diário o início dos bombardeios. Infelizmente este importante documento histórico continua inédito: sua publicação foi vetada pelas filhas do primeiro casamento do escritor, Wilma e Agnes, sob a alegação que descreve também o início de seu relacionamento com Aracy.

Assim, ficamos sem o que talvez seja o único diário da Segunda Guerra Mundial escrito por um grande autor latino-americano. E vale lembrar também que o relacionamento com Aracy, que começa justamente em 1938, ao se conheceram no Consulado de Hamburgo, seria mais tarde oficializado através de casamento, e se estenderia por quase 30 anos, até a morte de Guimarães Rosa, em 1967.


11 setembro 2008

Passeio pela arte moderna

Uma experiência áudio-visual pós-tudo

Nos anos 70, fiz um curso de história da arte com o professor Gilson Pedro no Colégio Equipe. Seus cursos utilizavam imagens e música para criar uma atmosfera extremamente envolvente, na qual os alunos faziam uma relação entre as diferentes correntes artísticas na história da arte e da música.

Em setembro estive no Equipe para uma apresentação dos alunos (comemorando os 40 anos do Equipe), e o reencontrei. Lembrei de seus cursos, e resolvi fazer esta homenagem. Ao invés do carrossel de slides e do gravador de fita cassete que ele costumava usar, utilizei imagens digitais obtidas na internet e uma trilha em mp3 ("Very Early", de Bill Evans, em versão do Kronos Quartet).