21 maio 2007

Uma certa Aracy, um chamado João

Ela enfrentou – e driblou – três ditaduras, salvou centenas de judeus dos campos de extermínio nazistas, escondeu Geraldo Vandré quando o cantor e compositor era procurado pelos militares, casou-se e foi companheira durante 30 anos de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Seu nome: Aracy Guimarães Rosa

Por René Daniel Decol

Leia íntegra da matéria na edição da revista TPM de maio

16 abril 2007

Musa militante

Ela enfrentou – e driblou – três ditaduras, foi a mulher definitiva de um grande escritor , e escondeu Geraldo Vandré dos militares. Mas provavelmente você nunca ouviu falar dela. Seu nome: Aracy Guimarães Rosa

Diz o velho ditado que todo grande homem tem uma grande mulher por trás. Não é menos verdade o caso de João Guimarães Rosa, um de nossos maiores escritores. Só que no caso dele, a grande mulher ficou esquecida. Nada mais natural no caso de um autor cuja obra e biografia são cercados de mistério – e maus entendidos.


Guimarães Rosa casou-se duas vezes: a primeira, com Lygia Cabral Penna, em 1930, aos 22 anos de idade. Mas foi um casamento que durou pouco tempo, e acabou em separação: nada incomum hoje em dia, mas na época ainda um tabu. Ele ainda era um jovem médico em Minas Gerais, viajava pelo sertão colhendo material para seus livros, e prometia muito como escritor.

Mas foi só em 1938, quando já separado de Lygia, Rosa foi nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo, que conheceu aquela que viria a ser sua segunda mulher, e companheira da vida madura: Aracy Moebius de Carvalho. Afinal, é com a nomeação para Hamburgo que começa, de fato, a carreira de João Guimarães Rosa como diplomata, escritor e personalidade de projeção mundial. Na diplomacia, encontrou a forma de ter tempo para viajar, aprender línguas, ler e escrever, suas grandes paixões. De 1938, até sua morte, em 1967, Aracy sempre esteve ao seu lado. Não é a toa que Grande Sertão: Veredas seja dedicado a ela. “A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”, diz o escritor na epígrafe de sua obra-prima.

Mas Aracy foi uma mulher a frente do seu tempo não só por ter sido a companheira e inspiradora de um dos maiores escritores. Sozinha, por conta própria, e muitas vezes contra a vontade do marido, Aracy praticava o que os alemães chamam de “amizade combatente”: atuava em favor dos oprimidos.

Primeiro, foi durante a Alemanha nazista. Aracy, nascida no Brasil, acabara de se separar do seu primeiro marido, e fora morar com uma tia na Alemanha. Poliglota, culta, educada, conseguiu um cargo graduado no consulado brasileiro em Hamburgo: entre outras atribuições, era responsável pela seção de vistos.

Era a metade dos anos 30 e começava a lenta e inexorável ascensão do nazismo. Os nazistas decretaram que os judeus alemães tinham que abandonar o país (e ainda por cima pagar um “imposto de emigração”). Exatamente neste momento as portas começam a se fechar, uma atrás da outra. Getúlio Vargas, admirador de Hitler e Mussolini, determina aos consulados na Europa que sejam negados vistos aos judeus.

Contrariando as ordens de Getúlio e de seus superiores, Aracy 'dá um jeito' de burlar a atenção do cônsul-geral (que não era Guimarães Rosa; o escritor era cônsul-adjunto e não tinha nada que ver com a seção de vistos), e conceder vistos de entrada no Brasil para judeus desesperados para encontrar um refúgio. “Como minha mãe despachava outros assuntos, no meio dos papéis ela enfiava os vistos que o cônsul-geral assinava sem perceber”, lembra Eduardo Tess, filho do primeiro casamento de Aracy, e enteado de Guimarães Rosa. “Como cônsul-adjunto ele não era responsável pelos vistos, mas sabia o que minha mãe estava fazendo e a apoiava”.

A coragem de Aracy foi reconhecida pelo governo de Israel: ela é um dos 18 nomes citados no Museu de Holocausto em Jerusalém, como pertencentes a uma seleta minoria que arriscou a vida para salvar a de judeus perseguidos e que de outra forma teriam acabado em campos de extermínio – e a única mulher.

Além de uma placa no Museu do Holocausto em Jerusalém (o famoso Yad-Vashem, nome em hebraico), ela ainda foi homenageada com um bosque plantado em seu nome entre Tel Aviv e Haifa pelo Keren Kayemet, a sociedade ecológica de Israel. A própria Aracy participou da cerimônia com um discurso quando a placa comemorativa com seu nome foi inaugurada em 1985.

Os 18 diplomatas homenageados no Yad-Vashem passaram por uma triagem onde só foram considerados os que arriscaram suas vidas sem nenhum outro motivo que não a ajuda humanitária, e em casos comprovados por testemunhas e evidências. Segundo a página que cita Aracy no site do Museu, estes 18 diplomatas “salvaram a vida de dezenas de milhares de indivíduos, na maioria judeus”.


Em 1942, o Brasil rompe relações com os países do Eixo e os diplomatas brasileiros na Alemanha são mantidos sob custódia em Baden-Baden. “Ficamos num hotel e nos tratavam mais ou menos”, lembrou Aracy no documentário Os nomes do Rosa, dirigido por Pedro Bial. “Com a guerra, tinha pouca comida, e a gente também passou fome. Eu emagreci muito. Comia um prato de sopa, mais nada. Havia pessoas de todos os Consulados internadas. Foi um tempo duro”.

De volta ao Brasil, Rosa oficializa a separação com Lygia e casa-se (por procuração, no México, como era praxe antes da existência do divórcio no país) com Aracy. Ela, que não era funcionária de carreira do Itamaraty, é indicada para o consulado de Quito, no Equador, um prêmio dado a todos os funcionários que passaram as agruras do período nazista. Ela recusa e abdica da carreira diplomática para ficar ao lado do marido, que começa a publicar seus livros no Brasil e em traduções no exterior com enorme repercussão da crítica mundial.

O casal que inicialmente se instalara no Rio de Janeiro, na Praia do Russel, muda em agosto de 1952 para Copacabana. No célebre apartamento com vista para a praia do Arpoador, Guimarães Rosa reescreve interminavelmente seus livros e escreve aquela que seria considerada por muitos sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas.

O casal então recebe a elite literária da época, entre os quais editores, tradutores e críticos americanos, alemães e italianos que, apesar da enorme dificuldade envolvida na tradução de palavras como “nonada”, querem a obra de Guimarães Rosa publicada em suas línguas.

Vem o golpe militar de 1964. Começa a caça às bruxas. Franklin de Oliveira, célebre jornalista e crítico literário que se tornara amigo íntimo de Rosa é uma das vítimas. O casal se oferece para escondê-lo. Ele recusa: não quer colocar o amigo em risco.

1967. Guimarães Rosa finalmente toma posse da cadeira na Academia Brasileira de Letras para a qual tinha sido eleito anos antes, mas que, supersticioso, adiara sistematicamente. No domingo, 19 de novembro, três dias depois da posse, sofre um enfarte fatal.

1968. Um ano após a morte do escritor vem o AI-5. Aracy participa de reuniões de artistas e intelectuais contra a ditadura e fica sabendo que Geraldo Vandré, um dos artistas mais procurados pelos militares, está escondido precariamente na casa de um parente. “Um dia recebi um telefonema da governanta de Aracy”, diz a parente de Vandré, que prefere não se identificar. “Disse que se precisássemos de algo, estaria pronta a ajudar. Foi com um anjo que caiu do céu na hora certa”. Esta fonte, cuja entrevista gravei, diz não quer se identificar porque Vandré ficou transtornado com os acontecimentos da época e não quer mais que se fale no assunto. Ela, porém, fez questão de dar o depoimento, ainda que anônima, em homenagem a Aracy.

Geraldo Vandré ficou escondido dois meses no seu apartamento. Ironicamente, acompanhava a movimentação do exército em seu encalço, já que a janela do escritório onde Guimarães Rosa trabalhava tem vista para o Forte de Copacabana. Justo ele, que encarnara como ninguém a pujança do jagunço na canção popular, assistia toda perseguição dos novos coronéis no poder sentado na mesa onde tantas histórias de coronel e jagunço foram escritas.

A relação entre Guimarães Rosa e Aracy não é difícil de entender: Aracy era culta, bonita, falava diversas línguas, e além de tudo, era uma humanista radical. Enfrentou o nazismo, o Estado Novo de Getúlio e a ditadura militar brasileira nas suas versões light (1964) e hard core (1968).

Nesta semana, Aracy completa 99 anos. Vive com o filho Eduardo Tess e a nora, Beatriz em São Paulo, na rua Dr Melo Alves, por coincidência, bem perto de onde outro anjo rebelde viveu: Elis Regina. Por ironia do destino, quem tem tanto para contar, não lembra mais de nada: sua memória foi se apagando com o tempo. O mais grave, porém, é que a memória nacional parece ter esquecido dela. Seu nome foi pouco lembrado no ano passado quando se comemorou ou 50 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, a obra-prima de Guimarães Rosa. Que afinal, foi dedicado a ela.


Publicado, com modificações, na revista Cláudia, de abril de 2007 (ainda nas bancas).

24 março 2007

Os 200 anos da abolição (na Inglaterra)

Há exatos 200 anos, o parlamento inglês aprovava uma lei proibindo o comércio de escravos em todo o Império Britânico

Ao se comemorar os 200 anos da abolição do comércio de escravos no Império Britânico, ainda falta muito para que possamos compreender em toda sua dimensão o período de quatro séculos no qual a escravidão e a navegação estiveram intrinsecamente ligadas à colonização das Américas. Em 25 de março de 1807, depois de vinte anos de campanha abolicionista, o Parlamento inglês decretou a ilegalidade do comércio de escravos, um ato que teria conseqüências fundamentais do outro lado do Atlântico. A partir de então, ao longo de uma série de medidas destinadas a extinguir o comércio, e depois a própria escravidão, a Inglaterra passou a reprimir o tráfico praticado por outras potências. O que fora parte integral da relação entre colônias americanas e suas metrópoles européias entre os séculos 15 e 19 começou lentamente a ser visto como uma aberração.



Nos últimos anos muito se pesquisou sobre a escravidão, esta instituição que marcou de forma tão profunda as colônias do Novo Mundo, e de forma particular, o Brasil. Um marco nessa historiografia é o recém-publicado Inhuman Bondage: The Rise and Fall of Slavery in the New World (Oxford University Press, 2006). O autor, diretor do Instituto de Estudos de Escravidão, Resistência e Abolição da Universidade de Yale, reuniu muito do que se produziu nas últimas décadas para compor um quadro panorâmico desta instituição tão profundamente ligada às nossas raízes.

Brion Davis mostra como o conceito de escravidão tem origens na Antiguidade e de alguma forma perpassa todas as grandes religiões. Mas foi com o “comércio triangular” através do qual os navios europeus exportavam artigos manufaturados (roupas, armas, objetos de metal) em troca de escravos, e estes por produtos naturais (açúcar, prata, madeira, café), fazendo uma navegação circular entre Europa, África e América, que fez com que o os africanos se tornassem integrais à história do Novo Mundo. O processo pode hoje ser visto, em retrospecto, como a primeira grande onda de globalização.

Por volta da metade do século 18, não só ingleses, mas franceses, portugueses, espanhóis, enfim, todos os grandes impérios da época enriqueciam com o “comércio triangular”. O maior império escravista, no entanto, era o inglês. Como lembra Brion Davis, “o comércio escravista, e seus desdobramentos, foram uma imensa fonte de riqueza e poder para a Inglaterra”. Dadas as suas proporções, é notável que a campanha abolicionista, que começou em 1787, tenha alcançado sucesso em apenas vinte anos.

A Inglaterra não era o único império escravista, mas seu inigualável poder marítimo fazia com que a escravidão nas suas colônias fosse um caso único em termos de alcance, tamanho e interação com outras instituições sociais e políticas - relação esta que era constantemente transformada e adaptada.






O começo do século 19 assistiu a uma enorme mudança de escala e natureza desta interação. Não se tratou de fenômeno isolado, mas parte de uma série de transformações que forjaram o nascimento do mundo moderno. Esta era turbulenta, caracterizada por forças contraditórias (revolução e reação, liberdade e imperialismo, guerra e paz, iluminismo e escravidão) teve como uma de suas consequências fazer com que as relações políticas e econômicas da Inglaterra com as colônias fossem sacudidas. E inaugurasse uma nova era na história do Novo Mundo.

Mas muitas perguntas ainda estão sem resposta. Qual foi, por exemplo, a dimensão exata desta migração forçada, o primeiro grande movimento populacional da história? As estimativas variam. Os historiadores hoje concordam que algo entre 11 e 12 milhões de africanos foram transportados através do Atlântico, entre os séculos 15 e 19, nas condições mais desumanas possíveis. Mas há quem chegue até os 20 milhões.

Quantos morreram na travessia, em uma época em que se calcula que um em cada cinco navios que tentavam atravessar o Oceano naufragavam?

O que se sabe é que o Brasil foi o segundo maior destino de africanos, perdendo apenas para as ilhas do Caribe, incluindo Cuba. Entre 1820 e 1880, quando a Inglaterra já tinha declarado o comércio ilegal, e ameaçava afundar qualquer navio transportando escravos através do Atlântico, mais de dois milhões foram trazidos para o Brasil e para Cuba. A mortalidade era tão alta que se fazia necessário um fluxo constante, apenas para manter o estoque existente.

Embora muitos lucrassem com o comércio escravista, na maior parte os europeus sequer sabiam de sua existência. Na própria Inglaterra não havia escravidão; portanto, não havia razão para os ingleses lidarem com esta verdade inconveniente.

O meio pelo qual o açúcar chegava às mesas européias era cuidadosamente escondido através de eufemismos: não havia tráfico, mas sim “aventuras na África”. Por trás das aparências, no entanto, começou a correr um sentimento que algo estava errado. Principalmente ao alvorecer das luzes, a partir do momento que começava a ganhar influência cada vez maior o iluminismo, com sua promessa de pautar a ação humana pela razão.

O sentimento de culpa provou ser o tendão de Aquiles do tráfico de escravos. O objetivo que os abolicionistas colocaram para si mesmos foi o de expor a sua realidade ao público ignorante da sua existência. O senso moral das pessoas faria o resto. Afinal, era o tempo das luzes, das novas idéias a respeito da sociedade, da política e dos direitos.

Mesmo que embasado no espírito de uma época, movimentos sociais exigem líderes convictos. Na Inglaterra, entre os pioneiros estavam os nomes de Granville Sharp, Thomas Clarkson, e William Wilberforce. Foi Clarkson quem, em 1787 – dois anos antes da Revolução Francesa – fundou a Sociedade pela Abolição da Escravidão. Como parte de sua campanha, ele e seus companheiros imprimiram e espalharam pela Inglaterra centenas de cartazes com os famosos diagramas dos navios negreiros, mostrando as condições como eram transportados. Estes diagramas tornaram-se ícones da causa abolicionista: ninguém mais poderia negar os horrores do tráfico. (Os aqui reproduzidos são de Descrição de um navio negreiro, de James Philips, Londres, 1789; em exibição no Peabody-Essex Museum de Salem, Massachusetts).





É claro que as revoltas de escravos desempenharam um papel igualmente importante. As rebeliões, juntamente com o movimento abolicionista, em meio a uma época em que se questionou profundamente todas as tradições do passado, causaram uma revolução do lado de cá do Atlântico.

Clarkson organizou também o que talvez tenha sido o primeiro boicote a um bem de consumo: o boicote ao açúcar, promovido para que os ingleses percebessem a crueldade do que estava por trás do cristal branco que combinava tão bem com o seu chá. 300 mil pessoas aderiram ao boicote, que tinha o objetivo de prejudicar os proprietários de plantações. E inspirou o movimento parlamentar, que apresentou várias propostas contra o comércio de escravos, até que uma delas foi finalmente aprovada, em duas votações, a segunda e definitiva em 25 de março de 1807, há exatos duzentos anos.

22 março 2007

Somos racistas?

Uma polêmica entre Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, e Paula Miranda-Ribeiro, professora da Universidade Federal de Minas Gerais

O jornalista Ali Kamel publicou no ano passado Não somos racistas: Uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor (Nova Fronteira, 144 pgs).

A pesquisadora Paula Miranda-Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais, escreveu uma interessante resenha sobre o livro, no último número da Revista Brasileira de Estudos de População, cujo conteúdo pode ser acessado on-line através do SciElo. Ela diz que o livro de Ali Kamel tem qualidades e que, em geral, seus argumentos são bem embasados. Mas Paula discorda das conclusões.

Sugestivamente, sua resenha tem o mesmo título do livro, mas com o sentido contrário, isto é, sem o “Não”: "Sim, somos racistas”, argumenta Paula Miranda-Ribeiro. (Leia a resenha).

A literatura sobre o assunto é inesgotável. Paula, por exemplo, cita o ótimo Racismo à brasileira, de Edward Telles (Relume-Dumará, 2003).

Acrescento mais alguns:

O Espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930, de Lilia Moritz Schwarcz (Companhia das Letras, 1993)

Gerações de cativeiro: Uma história da escravidão nos Estados Unidos, de Ira Berlin (Record, 2006)

O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro (Companhia das Letras, 2000)

O Brasil visto de fora, de Thomas Skidmore (Paz e Terra, 1994)

Chocolate, piratas e outros malandros, de Kenneth Maxwell (Paz e Terra, 1999)

Inhuman Bondage: The Rise and Fall of Slavery in the New World, de David Brion Davis (Oxford, 2006, ainda inédito em português)

Mas é bom lembrar que o racismo não é algo restrito apenas aos afro-descendentes. Eis, por exemplo, uma excelente obra sobre o anti-semitismo no Brasil:

O Brasil e a questão judaica: imigração, diplomacia e preconceito, de Jeffrey Lesser (Imago, 1994)

02 março 2007

Um oceano de história

O National Maritime Museum de Londres guarda o maior acervo da história da navegação

Nenhuma época acumulou tantas transformações tecnológicas quanto o século 20, um período no qual os carros, os aviões, os trens, e o metrô passaram a fazer parte do nosso cotidiano. O mar, em compensação, tornou-se um lugar remoto, cenários de antigas histórias de navegadores, que poucos de nós temos a chance de experimentar diretamente.

Felizmente, Londres tem um lugar onde talvez seja possível saber mais sobre o mar e suas histórias do que qualquer outro lugar do mundo: o National Maritime Museum de Greenwich, a apenas uma hora de barco do centro de Londres, ou a meia hora de metrô.

Ilha de navegadores, a Inglaterra tem dezenas de lugares para quem se interessa por história marítima. Mas o museu de Greenwich é único: primeiro, porque fica em um complexo que inclui ainda o parque de mesmo nome, o famoso Observatório, dois castelos portentosos do século 17, além do Cutty Sark, o famoso veleiro da garrafa de whisky, aberto a visitação pública. (Quem for lá descobrirá que o lendário barco, quem diria, navegou sob bandeira portuguesa, sob o nome de Ferreirinha, durante o século 19).

Mas o museu marítimo é o coração do passeio: ele reúne a maior coleção de artefatos ligados à navegação de todo o mundo. Está tudo lá: o mar, os barcos, os métodos de medição do tempo – tão importantes para o cálculo da longitude na época da navegação à vela – e as estrelas. Estão lá os astrolábios, mapas e globos; relógios, quadrantes, sextantes e oitantes; os compassos, lunetas e outros instrumentos que guiaram os europeus em direção a novos mundos, a partir do final do século 15, marcando o início de uma nova era. E como não poderia deixar de ser, bem ao lado, o Observatório, cujo objetivo inicial era marcar o tempo com exatidão, para que as embarcações pudessem calcular sua posição no oceano, baseado na medição do tempo e na posição das estrelas.

Para nós, brasileiros, as navegações fazem parte da nossa história não só como nação, mas individualmente. Fora os índios nativos, não há brasileiro que não descenda de alguém que tenha atravessado o oceano de navio em algum período, entre 1500 e a metade do século 20: apenas em 1958 o número de passageiros atravessando o Atlântico de avião superou o tráfego naval. A maioria dos nossos antepassados veio de países como Itália, Alemanha, Portugal, Espanha, Japão ou outras dezenas, de algum tipo de barco ou navio. Sem falar nos africanos, transportados à força nos infames navios negreiros.

A melhor maneira de chegar a Greenwich é através do Thames. Afinal, há maneira mais adequada de começar uma exploração naval do que tomando o barco em um dos rios mais famosos do mundo, e que é tema de uma das galerias do museu? Também é possível ir de metrô, passando por Canary Wharf, a parte nova da cidade, que já se transformou em vibrante centro financeiro, que também vale uma visita. Seja de barco ou de metrô, Greenwich é definitivamente uma grande pedida em Londres.

Além de instrumentos de navegação de todas as épocas, o grandioso museu abriga também réplicas de embarcações, desde caravelas e galeões do século 16, até um moderno simulador de navegação, na qual o aspirante a lobo do mar é desafiado a atracar em algum porto importante do mundo, sem, é claro, deixar o navio afundar. (No meu caso, escolhi o porto de Londres, e quase me atraquei com uma das pilastras da London Bridge...)

Mas a grande sabedoria do Museu Nacional Marítimo da Inglaterra, que faz dele também uma instituição de prestígio no mundo da pesquisa acadêmica, é entender que a navegação teve sentidos bem diferentes em cada época. Afinal, a história econômica, política e social do mundo está ligada à história dos meios de transportes. É possível, por exemplo, aprender muito sobre o sistema mercantilista, quando navios a vela levavam para as metrópoles os produtos extraídos das colônias, trazendo de volta artigos manufaturados, e entre uma coisa e outra, fazendo o tráfico de escravos. Em terminologia de hoje, começava a globalização. Neste período imperava o comércio de açúcar, chá, rum, tabaco, lã, especiarias, algodão e outros produtos em um comércio triangular entre Europa, Américas e África.

A escravidão fazia parte deste sistema e, claro, não poderia estar ausente em um museu tão completo. Estão lá os registros do 12 milhões de escravos que foram trazidos da África para as Américas a partir do século 16. Apenas em 1660, nada menos do que 3,5 milhões de escravos foram trazidos pelos ingleses para a América do Norte. Cerca de 500 mil morreram durante a travessia.

Com a revolução industrial, entre em cena o navio a vapor. É um período de grandes transformações tecnológicas, que acabam por tornar possível a chamada “grande era” da imigração internacional. Entre 1850 e 1950, nada menos do que 40 milhões de pessoas atravessaram o Atlântico da Europa para o Novo Mundo, no maior movimento populacional da história. A maior parte, cerca de 30 milhões, tiveram como destino os Estados Unidos. Cinco milhões vieram para o Brasil. Neste período, os barcos se transformam em máquinas cada vez mais complexas, cada vez maiores, até chegar às proporções de verdadeiras cidades marítimas. Os navios deste período, é claro, estão representados através de maquetes, modelos, partes de motores, réplicas das cabines. Também está lá todo o frisson que representava viajar nos transatlânticos de luxo do início do século, à bordo da exclusiva primeira classe.

A grandeza do Museu de Navegação de Greenwich está no fato de jamais perder de vista o papel que a navegação teve nos últimos séculos enquanto fenômeno político, social e econômico. Talvez seja por isso que ele tenha recebido o prêmio de excelência dos museus britânicos, em um país se orgulha de ter alguns das melhores instituições no gênero do mundo.

Numa época em que as grandes explorações eram fonte de inspiração para os artistas, a pintura sobre temas navais é parte importante do acervo. São imagens onde estão retratados símbolos de identidade nacional e história, em uma era de impérios em expansão. A abertura para novos mundos e novos povos, revolucionou a cabeça dos pensadores, filósofos e cientistas e artistas europeus desde então.

Para crianças das mais diversas idades o museu é um prato cheio: há muita coisa com finalidade educativa, como uma sessão inteiramente dedicada á poluição dos mares, e um planetário. Outra sessão, dedicada às atuais pesquisas em oceanografia, dão um toque excitante de ciência moderna.

Afinal, o oceano volta a ser, neste início de século, território de explorações inusitadas. As viagens do século 16, e as tecnologias desde então desenvolvidas, mudaram não só a geografia mas também a história, a ciência e o próprio mundo tal qual o conhecemos hoje. Agora, ao entrarmos em um novo milênio, teria a era das explorações oceânicas passado? Ou estamos a beira de descobertas que mudarão nosso universo, tal qual uma vez mudaram o globo? Se há um bom lugar para se meditar sobre isso é certamente no Museu de Navegação de Greenwich.

Serviço: National Maritime Museum e Royal Observatory, Greenwich. Aberto de 10:00 às 17:00, todos os dias. Site: http://www.nmm.ac.uk/

10 fevereiro 2007

Os dez melhores livros de ciência

O que escritores como Primo Levi, Brecht e Stephen Pinker têm em comum? Eles estão entre os autores dos dez mais importantes livros de ciência já publicados, de acordo com uma centenária instituição inglesa

A tabela periódica, do escritor Primo Levi, foi escolhido como o melhor livro jamais publicado sobre algum assunto relacionado à ciência. Nele, seu terceiro conjunto de ensaios, na maior parte auto-biográficos, o químico judeu que sobreviveu a Auschwitz faz referência aos elementos da tabela periódica como metáfora para falar de suas raízes familiares, sua juventude na Itália, e da série de eventos dramáticos que o levaram da resistência anti-fascista a um campo de concentração na Polônia. Primio Levi morreu em 1987, ao cair da sacada de seu apartamento, em Turin, no que acredita-se que tenha sido suicídio. Ele encabeça uma lista publicada pela Royal Institution, centenária instituição científica, na qual ironicamente consta também Konrad Lorenz, o pai da etologia. Embora depois tenha se retratado, Lorenz foi filiado ao partido nazista. Constam também entre os campeões o roteirista Tom Stoppard e o biólogo Richard Dawkins.

O critério foi tanto científico como literário, já que cientistas dos séculos 19 e 20, além de dramaturgos e roteiristas, foram aclamados. Estão na lista, por exemplo, Stephen Pinker, o contemporâneo pioneiro da ciência cognitiva, autor do polêmico Tábula Rasa, e o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, por sua peça Vida de Galileu. Está lá também Darwin (pelo relato A viagem do Beagle e não pela Origem das espécies), e o Prêmio Nobel James Watson, descobridor do DNA (A dupla hélice).

Tom Stoppard, o roteirista de Shakespeare Apaixonado (Oscar de 1998), e do clássico Brazil, do ex-Monty Python Terry Gilliam, foi indicado por Arcadia, texto ainda inédito por aqui. Na peça, que convida o leitor a viajar no tempo entre os séculos 19 e 20, um grupo de personagens representa seus respectivos dramas. Stoppard explora temas como a natureza da verdade e do tempo, as diferenças entre o temperamento romântico e o moderno, e o papel confuso que o sexo ganhou no mundo de hoje.

Outro inédito é King Solomon’s Ring do zoologista, psicólogo e ornitologista Konrad Lorenz. Nascido em Viena, criador da etologia, a ciência que estuda o comportamento animal, Lorenz tem diversos livros publicados no Brasil (mas não este). O escritor John Turney, que presidiu o evento, jusitificou a escolha da seguinte forma: "It's the most charming book ever written by a Nazi" (traduzível por “o livro mais charmoso jamais escrito por um nazista”). Lorenz era filiado ao partido, e foi recrutado para a Wermacht em 1941. Embora quisesse servir como mecânico de motocicletas, foi designado médico do exército alemão. Por isso, amargou um período nos campos de prisioneiros da ex-União Soviética. Depois, já reconhecido por seu trabalho científico, ganhou o Prêmio Nobel, e desculpou-se publicamente pela mancha na biografia.

Gene Egoísta, de Richard Dawkins, publicado em 1976, aclamado como divisor de águas nas ciências comportamentais, foi diversas vezes publicado no Brasil. Dawkins também é etologista e biólogo. Nascido em Nairobi, é radicado na Inglaterra.

Oliver Sacks, o neurologista inglês radicado em Nova York, não ficou de fora. Descendente de uma nobre linhagem de neurologistas, professor do Albert Einstein College of Medicine, escritor de raro talento que fez sucesso no Brasil com Um antropólogo em Marte, foi classificado pelo seu Com uma perna só.

Entre os dez livros, três nunca foram publicados no Brasil, e dois estão fora de catálogo, inclusive Vida de Galileu. No que diz respeito às editoras, a Companhia das Letras é a única presente com mais de um título.

A seguir, os vencedores, com as edições em português, quando disponíveis:

Primo Levi – A tabela periódica (Relume Dumará, 2001)
Konrad Lorenz – King Solomon’s Ring
Tom Stoppard – Arcadia
Richard Dawkins – Gene Egoísta (Itatiaia, 2001)

Também se classificaram:

James Watson – A dupla hélice (Gradiva, 2003)
Bertolt Brecht –Vida de Galileu (Civilização Brasileira, 1978)
Peter Medewar – Pluto’s Republic
Charles Darwin – A viagem do Beagle
Stephen Pinker – Tábula Rasa (Companhia das Letras, 2004)
Oliver Sacks – Com uma perna só (Companhia das Letras, 2002)

Claro que o valor literário contou tanto quanto o conteúdo científico. Basta lembra desta cena inicial de Vida de Galileu (leia a seguir). Nela, Brecht faz um empolgante discurso a favor das luzes, da ciência e do conhecimento, contra a escuridão e as trevas.

Vida de Galileu

Bertolt Brecht

Primeira parte

Galileu Galilei, professor de matemática em Pádua, quer demonstrar o novo sistema copernicano do universo

Quarto de estudo de Galileu, em Pádua; o aspecto é pobre. É de manhã. O menino Andrea, filho da governanta, traz um copo de leite e um pão.

GALILEU (lavando o tórax, fungando alegre) - Ponha o leite na mesa, mas não feche os livros.

ANDREA - Seu Galileu, minha mãe disse que, se nós não pagarmos o leiteiro, ele vai dar um círculo em volta de nossa casa e não vai mais deixar o leite.

GALILEU - Está errado, Andrea; ele "descreve um círculo".

ANDREA - Como o senhor quiser, seu Galileu. Se nós não pagarmos, ele descreve um círculo.

GALILEU - Já o oficial de justiça, o seu Cambione, vem direto pra cima de nós, escolhendo qual percurso entre dois pontos?

ANDREA (rindo) - O mais curto.

GALILEU - Bom. Eu tenho uma coisa para você. Veja atrás dos mapas astronômicos.

Andrea pesca atrás dos mapas, de onde tira um grande modelo do sistema ptolomaico, feito de madeira.

ANDREA - O que é isso?

GALILEU – É um astrolábio; é para mostrar como as estrelas se movem à volta da Terra, segundo a opinião dos antigos.

[. . .]

ANDREA (move as esferas) - É bonito. Mas nós estamos fechados lá no meio.

GALILEU (se enxugando) - É, foi o que eu também senti, quando vi esta coisa pela primeira vez. Há mais gente que sente assim. (Joga a toalha a Andrea para que ele lhe esfregue as costas.) Muros e cascas, tudo parado! Há dois mil anos a humanidade acreditou que o Sol e as estrelas do céu giram em torno dela. O papa, os cardeais, os príncipes, os sábios, capitães, comerciantes, peixeiras e crianças de escola, todos achando que estão imóveis nessa bola de cristal. Mas agora nós vamos sair para fora, Andrea, para uma grande viagem. Porque o tempo antigo acabou, e agora é um tempo novo. Já faz cem anos que a humanidade está esperando alguma coisa.

As cidades são estreitas, e as cabeças também. Superstição e peste. Mas agora, veja o que se diz: se as coisas são assim, assim não vão ficar. Tudo se move, meu amigo. Gosto de pensar que tudo tenha começado com os navios. Desde que há memória, eles vinham se arrastando ao longo da costa, mas, de repente, deixaram a costa e exploraram os mares todos.

Em nosso velho continente nascia um boato: existem continentes novos. E agora que os nossos barcos navegam até lá, a risada é geral nos continentes. O que se diz é que o grande mar temido é uma lagoa pequena. E surgiu um grande gosto pela pesquisa da causa de todas as coisas: saber por que cai a pedra se a soltamos, e como sobe a pedra que arremessamos. Não há dias em que não se descubra alguma coisa. Até os velhos e os surdos puxam conversa para saber das últimas novidades.

Já se descobriu muita coisa, mas há mais coisas ainda que poderão ser descobertas. De modo que também as novas gerações têm o que fazer.

Em Siena, quando moço, vi uma discussão de cinco minutos sobre a melhor maneira de mover blocos de granito; em seguida, os pedreiros abandonaram uma técnica milenar e adotaram uma disposição nova e mais inteligente das cordas. Naquele lugar e naquele minuto fiquei sabendo: o tempo antigo passou, e agora é um tempo novo. Logo a humanidade terá uma idéia clara de sua casa, do corpo celeste que ela habita. O que está nos livros antigos não lhe basta mais.

Pois onde a fé teve mil anos de assento, sentou-se agora a dúvida. Todo mundo diz: é, está nos livros -, mas agora nós queremos ver com nossos olhos.

As verdades mais consagradas são tratadas sem-cerimônia; o que era indubitável, agora é posto em dúvida. Em conseqüência, formou-se um vento que levanta as batinas brocadas dos príncipes e prelados, e põe à mostra pernas gordas e pernas de palito, pernas como as nossas pernas. Mostrou-se que os céus estavam vazios, o que causou uma alegre gargalhada.

Mas as águas da Terra fazem girar as novas roscas, e nos estaleiros, nas casas de cordame e de velame, quinhentas mãos se movem em conjunto, organizadas de maneira nova.

Predigo que a astronomia será comentada nos mercados, ainda em tempos de nossa vida. Mesmo os filhos das peixeiras quererão ir à escola. Pois os habitantes de nossas cidades, sequiosos de tudo que é novo, gostarão de uma astronomia nova, em que também a Terra se mova. O que constava é que as estrelas estão presas a uma esfera de cristal para que não caiam. Agora juntamos coragem, e deixamos que flutuem livremente, desancoradas e elas estão em grande viagem, como as nossas caravelas, desancoradas e em grande viagem.

E a Terra rola alegremente em volta do Sol, e as mercadoras de peixe, os comerciantes, os príncipes e os cardeais, e mesmo o papa, rolam com ela.

Uma noite bastou para que o universo perdesse o seu ponto central; na manhã seguinte, tinha uma infinidade deles. De modo que agora qualquer um pode ser visto como centro, ou nenhum. Subitamente há muito lugar. Nossos navios viajam longe. As nossas estrelas giram no espaço longínquo, e mesmo no jogo de xadrez, agora a torre atravessa o tabuleiro de lado a lado. Como diz o poeta: "Ó manhã de inícios!..."

21 janeiro 2007

No país dos decibéis

Claudio de Moura Castro

"Será que o baixo crescimento da economia
não seria o resultado do excesso de barulho?"


Ao fazer as malas para o Brasil, após quinze anos na Suíça e nos Estados Unidos, assaltava-me o temor de um choque cultural. Como a Batalha de Itararé, o choque não ocorreu, foi ajustamento instantâneo. Mas houve uma exceção: o choque dos decibéis.

Eu vinha de uma Suíça onde em muitos edifícios é proibido tomar banho e puxar a descarga após as 10 horas da noite. Os ônibus são silenciosos, e aviões barulhentos não pousam lá. Os cachorros não latem, e as crianças não berram. É proibido cortar grama aos domingos, por causa do barulho das máquinas. Lá eclodiu um célebre processo judicial contra os cincerros das vaquinhas que incomodavam um vizinho. Fiquei mal-acostumado, adquiri hábitos alienados.

Aqui estou, depositado no país dos decibéis. Ônibus e caminhões urram dentro da lei dos 88 decibéis máximos, quando na Europa a norma é 74 (sendo a escala de decibéis logarítmica, o volume de som é muitas vezes maior!). Muitos urram fora da lei. Uivam motos sem silenciosos. Os pneus cantam nas curvas. A cachorrada da vizinhança tem cordas vocais de aço-molibdênio. As igrejas e os cultos confundem decibéis com fé.

A obra-prima da agressão sonora são uns automóveis cujos porta-malas se abrem revelando uma bateria de alto-falantes, terrível usina de decibéis. Felizmente, algumas cidades turísticas estão comprando decibelímetros, para não perder clientes antiquados como eu.

As salas de aula não têm tratamento acústico. Parece até que foram planejadas para maximizar a refletância ambiente (as piores são as dos Cieps). A norma da ABNT para salas de aula estipula um máximo de 40 a 50 decibéis, mas o nível de ruído atinge 75 em casos comprovados. O ruído impede a atenção ou mesmo impede de ouvir o professor. Em quantos pontos faz cair o rendimento dos alunos brasileiros?

Nos restaurantes, a barulheira não está no cardápio, mas é parte do serviço. É como se o objetivo de manter uma conversação relaxada e inteligente fosse coisa subversiva, a ser impedida pelas múltiplas ressonâncias – amplificadas pelas superfícies lisas e paralelas. Um proprietário experiente disse que restaurante silencioso espanta clientes.

Parece que o choque de gerações se concentra nos decibéis. Na música, são o sonho de consumo, indo muito além dos níveis máximos das normas de saúde ocupacional. E, diante dos que reclamam, a polícia candidamente confessa não saber bem o que fazer nem qual unidade cuida do assunto. Ou, então, vai inspecionar no dia seguinte ao da festa.

O que menos me incomoda é a música das boates, apesar de ensurdecedora. É que, após uma experiência traumatizante, aprendi minha lição. Não entro nelas em hipótese nenhuma. Se lá dentro estivesse, de bom grado pagaria para sair.

Segundo os padrões da Organização Mundial da Saúde (OMS), 65 decibéis marcam o limiar do que faz mal à saúde – dependendo do tempo de exposição. Verificou-se que ruído excessivo aumenta a adrenalina, provoca alta de pressão, stress, insônia e (em Berlim) aumenta em 20% a probabilidade de infarto. Nos Estados Unidos, 10 milhões de pessoas perderam a audição (ou parte dela) por excesso de ruído – e parece que os números aumentam. Lá, o seguro-saúde é mais caro para quem trabalha em lugares barulhentos. Entre nós, quantos milhões convivem com muito mais decibéis do que a lei permite em fábricas? Uma banda de rock emite tantos malditos decibéis quanto uma turbina de avião (130 decibéis).

O ruído nas ruas, nas escolas e nos hospitais costuma estar acima do máximo da OMS. Será possível aprender em salas de aula tão ruidosas? Por que ignorar os males que faz à saúde? Será que o baixo crescimento da economia não seria o resultado do excesso de barulho? A sociedade não estaria sendo anestesiada ou hipnotizada por uma forma sinistra de conspiração sonora?

Manifesto a minha revolta auditiva contra um povo que confunde alegria com barulho. Parece que música alta libera hormônios, dando um "barato". Que seja. Mas o prazer de uns poucos não pode ser à custa do incômodo de outros. O som que me incomoda invadiu ilegalmente a minha privacidade. Temos o direito ao silêncio.

18 dezembro 2006

Uma certa Aracy, um chamado João

A Folha publicou na segunda-feira, 18 de dezembro, meu artigo sobre Aracy Guimarães Rosa. Como o texto foi editado, reproduzo aqui a versão original. (Veja também fotos inéditas no FotoBlog)

“A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”. Com esta simples epígrafe, começa uma das maiores epopéias da história da literatura mundial, Grande Sertão: Veredas. No entanto, ao se comemorar os 50 anos da publicação do livro mais importante de João Guimarães Rosa, pouco – ou nada – se falou sobre a mulher que teve um papel fundamental na vida do maior escritor brasileiro do século 20, comparado a Thomas Mann, Jorge Luís Borges e outros grandes mestres.

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, hoje com 98 anos, foi a sua segunda mulher. Mas enquanto escritor maduro, foi sua grande e única companheira: ficaram juntos 30 anos. Ambos haviam sido casados antes, e os dois tinham filhos do primeiro casamento. Mas foram uniões que duraram pouco. Ele casou-se pela primeira vez, em 1930, aos 22 anos, médico recém-formado, com um grande talento para as letras, mas que ainda não havia florescido plenamente.

Aracy, que viria a conhecer em Hamburgo, em 1938, foi a sua grande inspiradora, personagem, companheira, e interlocutora privilegiada durante o período mais importante da sua vida e obra. Enfim, foi sua Simone de Beauvoir. “Aracy viveu 30 anos com ele, desde o primeiro livro importante, Sagarana, até a sua morte”, lembra Neuma Cavalcante, professora da Universidade Federal do Ceará. “Ela lia, opinava, sugeria, discutia, participava ativamente da obra. De certa forma ela é co-autora. Tanto que o Grande Sertão não é dedicado; é dado: ele doou o livro à Aracy, como diz a epígrafe. Isto é muito significativo”.

Se Aracy teve papel tão importante na vida de um dos maiores nomes da literatura mundial, porque sua imagem está tão apagada neste ano em que se comemora o cinqüentenário da saga de Riobaldo e Diadorim? “Ela deveria ser mais lembrada. A questão é que eles eram discretos na vida pessoal. Ela ficava afastada dos holofotes enquanto ele aparecia. Mas o papel dela não pode ser subestimado”, diz Neuma Cavalcante. Discreta, sem jamais ter caído na tentação de se promover por ter sido quem foi, Aracy paga hoje o preço do esquecimento. Sua influência sobre o escritor tem sido negligenciada pela crítica, pelos historiadores da literatura, e pela mídia.

Há quem acredite que ela serviu de inspiração para Diadorim, a personagem do Grande Sertão. Aracy tinha certamente algo de Hannah Arendt, a extraordinária filósofa alemã, autora de Origens do totalitarismo e A condição humana, e que fez da própria vida um ato de luta contra as trevas. Aracy desafiou o nazismo, o Estado Novo de Getúlio, e a ditadura militar brasileira. Além disso, era culta, poliglota, e segundo alguns, uma das mulheres mais atraentes de seu tempo. “Não me admira em nada que Guimarães Rosa tenha se apaixonado por ela”, diz José Gregori, presidente do Conselho Municipal de Direitos Humanos, e ex-ministro da Justiça. "Era uma mulher de uma rara beleza, competente, e praticava um tipo raro de solidariedade". Enfim, uma personalidade a altura do espírito inquieto do grande escritor.

“Rosa praticava aquilo que os alemães chamam de ‘amizade combatente’: atuava a favor do amigo, sem esperar que este lhe pedisse ajuda”, lembrou o jornalista e crítico literário Franklin de Oliveira. Aracy também. Em 1937 ela salva judeus do nazismo. Em 1964, já no Rio, junto com o escritor, tentam esconder o próprio Franklin de Oliveira, procurado pelos militares. Em 1968, o escritor já morto, Aracy esconde o cantor e compositor Geraldo Vandré, caçado pela ditadura pós-AI-5.

“Aracy era a grande personagem da vida dele”, diz Neuma Cavalcante, que está escrevendo sua biografia (com Elza Mine, professora do departamento de Língua e Filologia Portuguesa da USP). O livro, que deve ser publicado no ano que vem, é baseado no seu acervo, incluindo recortes de jornais, anotações e, principalmente, a correspondência entre os dois.

1937. Ele, já separado da primeira mulher, chega a Hamburgo como cônsul adjunto, em momento particularmente dramático: às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

“Em 1934, Rosa fez o concurso para o Itamarati, tendo conquistado o segundo lugar. Via na diplomacia um meio de conhecer o mundo, coisa que, como menino pobre, jamais poderia fazer”, conta Franklin de Oliveira, em uma introdução do Grande Sertão, que desapareceu injustificadamente das últimas edições (veja abaixo). “Seu primeiro posto na carreira foi na Alemanha, onde conheceu sua segunda mulher, que seria a companheira de toda a vida – Aracy Moebius de Carvalho, que ele tratava carinhosamente de Ara”.

Diadorim ou Hannah Arendt?

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, nascida Moebius de Carvalho, no interior do Paraná, já separada, foi para a Alemanha no início dos anos 30 morar com uma tia e o filho do primeiro casamento, Eduardo Tess. Como falava bem alemão, inglês e francês, conseguiu uma nomeação para o consulado brasileiro em Hamburgo. Acabou sendo encarregada da seção de vistos.

Quando Guimarães Rosa chega a Hamburgo, já separado da primeira mulher, entra em vigor a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no Brasil – consequência do fascínio que Getúlio Vargas sentiu pelos regimes de Hitler e Mussolini, e que o americanista Jeffrey Lesser descreve muito bem no livro O Brasil e a questão judaica.

Contrariando ordens do Itamarati, Aracy cria esquemas para burlar a atenção do cônsul geral – que, de simpatizante dos judeus, subitamente se descobriu um anti-semita de primeira hora –, salvando assim a vida de muitos.

“Minha mãe resolveu ignorar a circular que proibia a concessão de vistos a judeus, achou aquilo um absurdo, e por risco e conta dela continuou a preparar os processos, à revelia das ordens do Itamarati e de seus superiores no consulado. Como ela despachava outras coisas com o cônsul geral, no meio dos papéis enfiava os vistos. Muitos judeus vinham de outras cidades mas para que os seus passaportes pudessem ser processados em Hamburgo, tinham que provar que moravam na região. Ela conseguia os atestados, e quando entravam com os papéis, já tinham esta dificuldade resolvida”.

Aracy e Rosa se conhecem e iniciam um relacionamento que perduraria até a trágica e prematura morte do escritor em 1967.

Rosa sabe o que Aracy faz, com grande risco. “Como cônsul-adjunto, ele não era responsável pelos vistos, mas sabia o que minha mãe estava fazendo. E apoiava”, diz Eduardo. “Os vistos eram assinados pelo cônsul geral”, lembra ele. Se descobertos, os dois poderiam ter tido o mesmo destino de Olga Benário Prestes, entregue por Getúlio à Gestapo. Ele, no mínimo, perderia o cargo. A cúpula do governo Vargas estava convencida de que os judeus, que Hitler queria extinguir da Europa, e que procuravam refúgio em qualquer país que os acolhesse, poderia comprometer a “boa” formação do povo brasileiro. Deveriam, portanto, ser impedidos de entrar no Brasil.

E por que ela não acatou as ordens de Getúlio, abandonando os judeus à própria sorte? “Porque não era justo”, ouvi dela uma única vez, em seu estilo reservado, como se arriscar a vida por gente que ela nem conhecia pessoalmente fosse uma atitude óbvia. Pena que muitos se esqueceram disso quando Hitler parecia ter dominado a Europa, era admirado e copiado por Getúlio, e os judeus enviados aos milhões para campos de extermínio.

O gesto heróico de Aracy recebeu dezenas de homenagens, entre as mais importantes, uma placa em seu nome no Jardim dos Justos, no Museu do Holocausto, em Jerusalém (veja fotos). Até há pouco, era o único nome brasileiro. Recentemente, ganhou a companhia de Luiz Martins de Souza Dantas, o embaixador em Paris durante a guerra, que também arriscou a vida salvando judeus. Aracy ganhou uma placa também no Museu do Holocausto de Washington. E foi homenageada diversas vezes pela comunidade judaica brasileira, onde é conhecida como o “Anjo de Hamburgo”.

Maria Margareth Bertel Levy, ou dona Margarida, como prefere ser chamada, e seu marido, o cirurgião-dentista Hugo Levy, já falecido, são alguns entre os judeus que Aracy ajudou a salvar. “Ela me levou pessoalmente ao navio, usando seu passaporte diplomático”, lembra. Dona Margarida e seu marido, como muitos outros judeus que moravam na Alemanha, subestimaram o perigo representado pela ascensão de Hitler ao poder. “Hamburgo tinha tradição de uma cidade liberal e imaginávamos que estivéssemos a salvo”.

“Ela foi realmente um anjo que entrou na nossa vida”, diz alguém que acompanhou o asilo de Geraldo Vandré na casa de Aracy, em 1968. “Artistas na época foram presos e sofreram muito”, diz. “Graças a Aracy, Vandré conseguiu fugir para o Uruguai sem ser molestado”. Detalhe: Aracy não conhecia o cantor e compositor. Sabia apenas que ele tinha trabalhado no filme de 1965 de Roberto Santos A hora e a vez de Augusto Matraga, baseado no conto homônimo de Guimarães Rosa, e do qual Vandré foi co-produtor, autor da trilha sonora, e ator. E que estava sendo procurado pela ditadura.

Diário de Hamburgo

Primeiro de setembro de 1939. Os alemães invadem a Polônia. Começa a Segunda Guerra Mundial. Aracy continua dando vistos para judeus, arriscando o emprego e a vida. Guimarães Rosa a apóia, e de qualquer forma, como tinham uma relação pública, teria sido de qualquer forma considerado cúmplice. A partir de 1940, a aviação britânica começa a bombardear alvos estratégicos em diversas cidades da Alemanha, entre elas Hamburgo. “Ainda me lembro do barulho das sirenes”, recorda-se Eduardo, na época ainda criança.

Guimarães Rosa mantém então um diário de guerra, ainda inédito, onde anota o terror produzido pelos aviões da RAF. “Há muitos recortes de jornais, e pela forma como os recortes estão colados, e pelos comentários, é possível ver o que está acontecendo na Alemanha no período”, diz Wander Melo Miranda, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, e diretor da editora da UFMG. O livro foi preparado para publicação por dois professores brasileiros e um alemão, mas ainda não tem data prevista para publicação. “É o único diário sobre a Segunda Guerra Mundial escrito por um grande nome da literatura latino-americana”, diz Miranda. É de se prever que o "Diário de Hamburgo” , como vem sendo chamado, teria enorme repercussão na Alemanha, onde Guimarães Rosa é particularmente reverenciado.

“Não sabemos ainda se o livro poderá ser lançado”, diz Miranda. “É um trabalho bem feito, do qual temos orgulho. É um livro que interessa a tipos diferentes de públicos: historiadores, críticos literários, alemães, judeus, os habitantes de Hamburgo, e enfim, aos admiradores do escritor no mundo todo”.

Mas não é só no diário engavetado que Guimarães Rosa deixou suas impressões antitotalitárias: sabe-se hoje que ele chegou a ser denunciado na Gestapo por suas posições políticas. É o que revelaram pesquisadoras brasileiras que encontraram nos arquivos da polícia política alemã queixas então encaminhadas pela chancelaria do Terceiro Reich ao Ministério das Relações Exteriores, dando conta que o então cônsul adjunto fizera declarações contrárias ao regime de Adolf Hitler.

Por ironia do destino, Aracy, que teria tanto para contar, hoje com 98 anos, pouco se recorda. “Até os anos 90 ela ainda estava ativa, e tinha muitos amigos dos tempos do Itamarati. Mas com o tempo, foram morrendo e Aracy foi se apagando”, lamenta uma amiga.

Mas Dona Margarida, salva por Aracy, imigrou para o Brasil, e continua sua amiga até hoje, ainda lembra: “Quando fomos a primeira vez ao seu encontro, o cônsul-geral foi muito gentil. Mas subitamente, de uma hora para outra, tornou-se anti-semita. Sabendo da nossa amizade, disse a Aracy que ela estava proibida de ter amigos judeus. Ela respondeu que ele não tinha o direito de se meter na sua vida”.

Escondendo Geraldo Vandré

1968, o ano que não acabou, como definiu Zuenir Ventura. Mal refeita da morte do marido, vem o AI-5. Aracy toma parte em reuniões contra a ditadura, onde fica sabendo que Geraldo Vandré está sendo procurado pelos militares. “Um dia recebi um telefonema de alguém que se identificou como sendo a sua governanta”, diz uma pessoa que acompanhou a história, e que prefere não se identificar por razões familiares. “Disse que se precisasse de algo, ela estaria pronta a ajudar. Foi como um anjo que caiu do céu na hora certa”.

Vandré ficou escondido no apartamento onde o escritor vivera, e onde morrera um ano antes. Com vista para o Forte de Copacabana, ironicamente, Vandré acompanhava do gabinete de trabalho onde fora escrito Grande Sertão: Veredas a movimentação do exército no encalço dos perseguidos políticos da época - ele mesmo inclusive. O mais curioso é que Vandré encarnara como ninguém o jagunço do sertão nordestino na canção popular.

A paixão entre Rosa e Aracy, afinal, não é difícil de entender. Suas personalidades combinavam. Primeiro, o interesse por línguas. Ele, um poliglota rematado, como uma vez se definiu, com o humor blasé reservado aos gênios: “Falo alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração”.

Ela, além de falar diversas línguas, era bonita, educada, interessada em arte, história e literatura, e acima de tudo, uma humanista corajosa. Enfim, alguém de quem se poderia dizer o mesmo que Riobaldo no começo do Grande Sertão: “O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Divêrjo de todo mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

Aracy parece ter colocado na cabeça a idéia de que o anti-semitismo em ascensão na Alemanha era uma idéia errada. E foi até o fim apesar dos riscos.

15 de agosto de 1942. Submarinos alemães torpedeiam o navio brasileiro Baependi. No dia 31 de agosto o Brasil declara guerra à Alemanha. Diplomatas brasileiros, entre eles Cícero Dias, Cyro de Freitas Vale, além de Guimarães Rosa e Aracy, são mantidos em custódia por mais de quatro meses em Baden-Baden, e finalmente trocados por diplomatas alemães. Guimarães Rosa e Aracy embarcam para o Brasil, via Stutgart, Madri e Lisboa. Fim do Diário de Hamburgo.

Um chamado João

O casal se instala no Rio. Como não podem se unir legalmente – ainda não existe o divórcio no Brasil - se casam por procuração, no México, como era de praxe na época. Ele ainda tem cargos diplomáticos de grande importância – é nomeado, por exemplo, para a Conferência de Paz em Paris. Dedica-se cada vez mais à literatura. Em 1946 publica Sagarana. Em 1956 aparece Corpo de Baile e logo depois Grande Sertão: Veredas. “Eu era menino ainda”, recorda-se Eduardo. “Mas lembro bem dele lendo trechos em voz alta para minha mãe”. Aracy abdica da carreira diplomática: prefere ficar ao lado do escritor, cuja projeção começa ganhar dimensões internacionais. Durante o governo JK ele ganha status de embaixador (e não em 1963, como diz a Enciclopédia Britânica).

1965. Rosa é traduzido e publicado na França, Itália, Estados Unidos, Canadá e Alemanha. Depois Polônia, Holanda, Tchecoslováquia. No apartamento com vista para o mar, em Copacabana, onde ele continua retocando interminável e obsessivamente seus livros, e colecionando as edições internacionais que se avolumam, o casal recebe a elite intelectual da época: o crítico brasileiro (nascido na Hungria) Paulo Rónai; o tradutor para o alemão Curt Meyer-Clason; o crítico Willi Bolle; seu editor americano e também amigo pessoal, Alfred Knopf; o tradutor para o espanhol Angel Crespo; o crítico francês Renard Perez; o tradutor para o italiano Edoardo Bizzarri, com quem manteve riquíssima correspondência, publicada no Brasil e na Itália... Enfim, a lista é infindável.

Domingo, 19 de novembro de 1967. Três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras, o que vinha adiando há anos devido ao receio de não resistir à emoção, Guimarães Rosa brincava com a neta favorita, Vera Tess, no seu escritório. Como fazia todo domingo, Vera saiu com a avó Aracy para ir à missa ao final da tarde, na igrejinha do Forte de Copacabana. “Na volta para casa, eu levava pipoca para ele”, lembra Vera, hoje uma psiquiatra em São Paulo, mãe de dois filhos, o primogênito chamado João, em homenagem ao escritor. “Naquele domingo, ao entrar no escritório, encontrei-o parado em frente à escrivaninha. Soube depois: estava tendo o enfarte”, recorda na introdução do Ooó do Vovô!, uma coletânea de cartões postais enviados por Rosa às netas Vera e Beatriz Helena, publicada em 2003 pelas editoras da USP e da PUC de Minas (veja abaixo).

1973. Tom Jobim grava o seu álbum Matita Perê, talvez sua obra mais importante, e certamente, a melhor tradução musical da obra de Guimarães Rosa. Nele, em uma faixa dedicada ao escritor, resume a perplexidade do mundo com o seu desaparecimento prematuro, seis anos antes:



E por maus caminhos de toda sorte

Buscando a vida, encontrando a morte

Pela meia rosa do quadrante Norte,

João, João

...

Recebendo aviso entortou caminho

De Nor-Nordeste para Norte-Norte

Na meia vida de adiadas mortes

Um estranho chamado João

...

Por sete caminhos de setenta sortes

Setecentas vidas e sete mil mortes

Esse um, João, João

E deu dia claro

E deu noite escura

E deu meia-noite no coração

...


Hoje, Aracy, aos 98 anos, vive em São Paulo, com o filho Eduardo e a nora Beatriz Tess.

Vasculhando a biblioteca da Universidade de São Paulo, movido pela curiosidade de saber como a palavra “nonada”, a primeira de Grande Sertão: Veredas, foi traduzida para línguas como alemão, inglês, espanhol e italiano, me dou conta que devo a minha vida e a de meus pais a pessoas como Aracy.

Como judeu polonês, meu pai era considerado cidadão de segunda classe em seu próprio país, com direitos limitados (não podia freqüentar bibliotecas e universidade). E sobreviveu aos nazistas apenas por que nem todos se renderam à barbárie totalitária.

No caso dele, e também de minha mãe, não foi Aracy, mas outras pessoas que os salvaram, arriscando suas vidas. Já grande parte da minha família não teve a mesma sorte. Meu avô paterno morava no Gueto de Varsóvia de onde a partir de julho de 1942 centenas de milhares de judeus começaram a ser deportados para campos de concentração. Em vagões de gado.

Segundo o judaísmo, quem salva uma vida, salva uma parte da humanidade, porque salva toda sua infinita descendência. Para estes, por maiores que sejam, as homenagens nunca serão suficientes.


René Decol é jornalista e doutor em ciências sociais pela Unicamp. Nascido em São Paulo, filho de sobreviventes do holocausto, está escrevendo um livro sobre imigração judaica para o Brasil

Meu avô Joãozinho

Introdução ao Ooó do Vovô! : Correspondência de João Guimarães Rosa, vovô Joãozinho, com Vera e Beatriz Helena Tess

Vera Tess

Aracy, minha avó, e João Guimarães Rosa, Joãozinho para ela, conheceram-se em 1938, no Consulado Geral do Brasil em Hamburgo, onde ela trabalhava. Ele, após ingresso na carreira diplomática, assumiu como cônsul adjunto, seu primeiro posto no exterior. Ambos desquitados. Foi quando começou uma história de amor que durou quase trinta anos.

Em 1942 houve o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha e posterior declaração de guerra. Na troca de diplomatas brasileiros e alemães, os brasileiros, após permanecerem sob internato na cidade de Baden-Baden, vieram para o Rio de Janeiro. Meu avô seguiu a carreira, enquanto minha avó deixou o Itamarati.

Moraram inicialmente na praia do Russel, no Flamengo e depois na rua Figueiredo de Magalhães, em Copacabana. Posteriormente fixaram residência na rua Francisco Otaviano, 33, no Posto 6, no Arpoador, onde ele veio a falecer. Foi ali que o conheci e convivi com ele, infelizmente por tão pouco tempo.

Morávamos em São Paulo, meus pais, Edu e Bia, e meus quatro irmãos: Beatriz Helena, minha irmã, mais velha um ano, a quem eu chamava de "dois-neném" (eu era a número um, claro!); e meus irmãos mais velhos, Eduardo (Bite), Luiz Renato (Uiz Renato) e Plínio (Pínio).

Caçula, eu não ia ainda para a escola, o que me permitia passar mais tempo no Rio. Os cartões, escritos entre 1966 e 1967, quando eu tinha entre 3 e 4 anos de idade, eram como vovô Joãozinho me convidava para mais uma temporada no Rio.

Demorei a falar (por pura preguiça, diziam), limitava-me a apontar para os objetos que eu queria pegar, chamando-os de "ooó". Daí meu avô carinhosamente chamar-me de "ooó do vovô". Nos cartões e nas anotações ele recriava um universo completamente familiar para nós dois, reproduzindo sons, imagens, objetos e personagens, numa linguagem sedutora.

Todo esse material - cartões, anotações, cartas e desenhos feitos por mim e por minha irmã, junto com recortes de jornal sobre o autor João Guimarães Rosa com anotações suas para mim - foi guardado pela minha avó por anos. Em 1998, quando levamos os manuscritos do Grande Sertão: Veredas para Guita e José Mindlin nos orientar sobre como conservá-los, levei também estes cartões. Começou aí toda a história de publicá-los.

Vovô Joãozinho não era meu avô biológico, mas meu avô de coração e de fato, o único que conheci. Era o vovô que contava estórias, muitas estórias, que fazia dormir cantando músicas de ninar, que levava ao Zoológico - adorávamos o Zoológico do Rio - que escrevia cartas e desenhava cartões...

Quando ele morreu, num domingo, 19 de novembro de 1967, eu tinha quatro anos e três meses. Três dias depois da posse na Academia Brasileira de Letras. Estávamos no Rio para a cerimônia, meus pais e eu. Meus pais voltaram para São Paulo na manhã do dia 19, e eu fiquei.

Todos os domingos, quando eu estava no Rio, minha avó e eu íamos à missa ao final da tarde, na igrejinha do Forte de Copacabana, que ficava justo ao lado do edifício. Na volta para casa, eu levava pipoca para ele. Naquele domingo, ao entrar no salão dos fundos, onde ficava,seu escritório, encontrei-o parado em frente à escrivaninha e chamando-me ..." ooó". Soube depois: estava tendo o enfarte.

Em minha última lembrança, ele está deitado num dos quartos, vestido com o fardão da Academia Brasileira de Letras, muita confusão no apartamento.

Cada vez que releio esses cartões, sinto um carinho imenso por esse "vovô queído" e muita pena por não ter tido mais tempo com o nosso vovô Joãozinho.

04 dezembro 2006

Um amigo chamado João

"Debaixo desta casca de civilizado, o que há é um jagunço. É o que sou. Comigo injustiça se corrige é a bala"

João Guimarães Rosa


Para o lançamento da edição de 1992 de Grande Sertão: Veredas, o jornalista Franklin de Oliveira escreveu uma introdução, que acabou desaparecendo das edições mais recentes. Nela, o jornalista e crítico literário, que se tornara amigo pessoal de Rosa, traça uma biografia suscinta do escritor. O texto foi editado por questões de concisão e clareza

Lembranças: Rosa, relógio de sol

Franklin de Oliveira

Sigo recordando o meu primeiro encontro com João Guimarães Rosa. Aconteceu em 1945 . . . Erymantho Coelho da Silva era o meu amigo mais íntimo. Mineiro, de Barbacena, fora o primeiro professor de inglês de Guimarães Rosa, quando este se preparava para ingressar por concurso no Itamarati. Erymantho ia sempre lá na casa de Rio Branco, bater papo com o Rosa.

Tinha saído Sagarana, provocando uma revolução na imprensa. Um dia Erymantho me disse: "Sabes? Estive ontem com o Rosa e ele falou em ti. Eu disse a ele que além de trabalharmos na mesma empresa, éramos grandes amigos. Ele me pediu para te levar ao seu gabinete." Recusei. Recusei não só uma, mas várias vezes: "Sou bicho de concha, gosto de ficar quieto no meu buraco." Mas, uma tarde, o Erymantho, ao voltar do Itamarati, me disse: "O Rosa me deu um ultimato. Quer que te leve a ele amanhã às 13 horas. (Rosa era o chefe de gabinete do chanceler João Neves da Fontoura.) Disse-me que se eu não te levasse, ele romperia comigo." E perguntou: "Agora, vai ou não vai? Vai ou vai querer que eu perca um amigo como o Rosa?" Não tive outro remédio, senão responder: "Se é assim, vou."

Chegamos ao Itamarati, o Erymantho apresentou-me ao Rosa, que mandou fechar as portas do gabinete e desligar os telefones. Ficamos a tarde inteira conversando. À hora de sairmos, ele puxou uma das gavetas de sua mesa de trabalho, retirou de lá um exemplar da primeira edição de Sagarana, escreveu a dedicatória: "A F. de O., que me faz acreditar ainda mais nas coisas em que mais acredito, com a crescente e inevitável amizade do G. R." Deu-me um abraço e disse: "Não te largo mais."

Antônio Calado, que conhece a história, uma vez me disse: "E não te largou mais."

* * *

Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, nos arredores da gruta descoberta pelo naturalista dinamarquês Lund, motivo porque Rosa por vezes chamava a sua terra de Lundlândia.

Em 1918, o seu padrinho e avô Luís Guimarães o leva para Belo Horizonte, matriculando-o no Colégio Arnaldo. Concluído o ginásio, matricula-se Rosa, em 1925, na Faculdade de Medicina de BH. Formado, é o orador da turma. Em 1930 casa-se em Belo Horizonte. No ano seguinte inicia a sua carreira de médico em Itaúna, no oeste mineiro. Em 1932, quando São Paulo se insurge contra a ditadura de Getúlio Vargas, Rosa ingressa como voluntário na Força Pública Mineira, na qual mais tarde se torna oficial médico, via concurso.

Em 1934 faz concurso para o Itamarati, tendo conquistado o segundo lugar. Via na diplomacia um meio de conhecer o mundo, coisa que, como menino pobre, jamais poderia fazer. Seu primeiro posto na carreira foi o de cônsul na Alemanha (Hamburgo, 1938), onde conheceu sua segunda mulher, que seria a companheira de toda a vida - Aracy Moebius de Carvalho, que ele tratava carinhosamente de Ara. Com heróicas feijoadas aos domingos, ambos matavam as saudades do Brasil.

Em 1932 a José Olympio promove um concurso de contos. Rosa se inscreve com Sagarana, título posterior do volume antes chamado de Sezão. Graciliano Ramos votou num outro - um livro de Luís Jardim. Do júri, só Marques Rebelo votou em Sagarana. Graciliano depois se arrependeu e desandou à procura do autor que, a essa altura, andava longe.

Estoura a guerra em 39. Cônsul adjunto em Hamburgo, Rosa dá proteção diplomática a todos os perseguidos políticos do nazismo. "Hitler era o demônio", cansou de me dizer. Com Ciro de Freitas Vale, embaixador do Brasil no Terceiro Reich, e Cícero Dias, Rosa foi confinado em Baden-Baden.

Volta ao Brasil. Demora pouco no seu país. É mandado para a Bolívia, como secretário da nossa embaixada. Em 1946 é nomeado chefe de gabinete de João Neves da Fontoura, ministro do Exterior. E logo a seguir é nomeado delegado brasileiro junto à Conferência da Paz.

Volta em 1942. Nesse ano, Rosa empreende a viagem ao pantanal matogrossense, cujo perfil retrata na rapsódia "Com o vaqueiro Mariano". Ele é o descobridor do paraíso ecológico do Brasil Central. Publicado no Correio da Manhã, "Com o Vaqueiro Mariano" é reeditado em plaquete, com ilustrações de Darel Valença Lins, em Niterói, em 1952.

De 1948 a 1952, ei-lo em Paris como primeiro secretário e ministro conselheiro da nossa embaixada na França. Em 52 retoma ao Brasil e, de novo, é nomeado chefe de gabinete do chanceler João Neves da Fontoura.

1956. Este é o seu grande ano. Publica, em maio, os dois volumes do livro de novelas Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, pela José Olympio.

É eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga de João Neves da Fontoura. Espírito supersticioso, adia a data da posse. Diante dos incessantes adiamentos, Austregésilo de Ataíde chega a lhe propor considerá-lo empossado. Rosa recusa até que chega o dia 16 de novembro de 1967, marcado definitivamente para a investidura acadêmica. A posse equivale a uma nova consagração.

Eu não tinha telefone em casa, e não ouvia rádio nem televisão. Na manhã de 20 de novembro, tínhamos encontro marcado para o almoço. Ao sair de casa, para tomar o ônibus, para ir ao seu encontro, na esquina da avenida Bartolomeu Mitre com a praça Antero de Quental, numa banca de jornal, vejo O Globo dependurado, com o retrato do Rosa com a farda acadêmica no alto da primeira página. Aproximei-me, pensando que era ainda matéria sobre a posse. Não. Era a notícia de sua morte súbita. O choque foi brutal. A sua brutalidade perdura há um quarto de século, com toda a sua crueldade.

Fui direto para a Academia. Lá estava o meu amigo. Dizia ele: "Não se morre: fica-se encantado." Conversando com Aracy, ele, em varias oportunidades, pedira para ser sepultado com os óculos. Já desenganado, num hospital de Zurique, Thomas Mann vivia no seu semicoma mirando o anel com uma turmalina verde que ganhara da filha Erik, ao fazer oitenta anos. Miguilim quis levar para o lado escuro da vida os seus óculos de míope.


***


E por que Rosa deixou a medicina?

Porque não admitia que um doente morresse em suas mãos.

A medicina dera-lhe várias paixões na sua vida. Entre estas,estavam as serpentes, que ele considerava o símbolo da perversidade. Resolveu estuda-las. Um dia, estava no campo, perseguindo uma, quando um enxadeiro lhe deu o sábio conselho:

"Moço, com mulher e com cobra não se brinca."

Rosa aceitou a segunda parte do conselho. E continuou a achar a mulher uma invenção maravilhosa.

Rosa era extremamente cioso de sua vida íntima. "Quem quiser me conhecer, procure-me nos meus livros", dizia aos leitores que o procuravam no Itamarati. Polido, recebia as pessoas com extrema delicadeza, mas nada de intimidade. Um contínuo, negro, quando me encontrava no Itamarati, dizia-me, referindo-se ao Rosa: "Aquilo sim é que é 'deplomata' leal."

Minucioso, anotava tudo, pois aprendera com Goethe que na natureza, nada se repete, não há coisa que seja igual a outra. Se lhe faltava papel, fazia anotações nos punhos da camisa.

Dos sentimentos humanos, aquele que mais o perturbava era a inveja. E me lembrava sempre o episódio bíblico de Caim e Abel, acrescentando que nós ambos éramos muito expostos a tal sentimento.

Vivia lendo. Mas não guardava livros: praticamente não tinha biblioteca. Tinha uma pequena goethiana, selecionadíssima. Livro de poesia, nenhum. Para o Rosa, a música e a prosa eram as duas formas de arte suprema. Assinalava nos livros que lia as passagens que lhe interessavam, mas com lápis de variadas cores. Não se sabia se as marcas eram de concordância, de discordância ou dicas para a formulação de novos pensamentos. Não dava a chave da mina a ninguém. Nos seus textos, fazia questão da tipologia. E quando achava lindo o nome de um lugar, como Buriti de Inácia Vaz, não hesitava em deslocá-lo do Maranhão para uma região mineira que fosse cenário de suas narrativas.

Me pegava em casa, toda manhã, no carro do Itamarati e descia para a cidade, pela Gávea. Na altura do Jardim Botânico, mandava o carro parar, e ficava olhando as palmeiras com olhos de mirar.

Não suportava injustiças. E me dizia: "Debaixo desta casca de civilizado, o que há é um jagunço. É o que sou. Comigo injustiça se corrige é a bala."

Em 1964, quando começou a caça às bruxas, quis que fosse me asilar na casa dele. Recusei: poderia comprometê-lo e eu não tinha esse direito. Só quando viu que não me demoveria da minha decisão, organizou uma lista de embaixadas nas quais eu pudesse buscar o direito de asilo.

Um dia a revista Manchete publicou uma foto de cassados embarcando de avião para o exílio. E me incluíram entre os expatriados. Estava para sair a edição americana de Sagarana. Rosa enviou a Alfred Konpf, o editor estadunidense, uma cópia de meu artigo sobre as epígrafes de Sagarana, com uma carta. Dizia que fazia questão da inclusão do meu texto na edição norte-americana, porque eu era perseguido político e ele queria dar um testemunho universal de sua solidariedade a mim.

Devemos ao embaixador Roberto Assunção a mais bela e exata definição de João Guimarães Rosa: relógio de sol - só marca as horas luminosas.

Em 1955, por motivos políticos, eu estava desempregado. Um dia, a campainha do apartamento da rua Rainha Guilhermina, no Leblon, onde eu residia, toca. Era o Rosa: "Desenferruja a pena. O Antônio Calado está te esperando hoje às 16 horas no Correio da Manhã."

O Rosa trançara com o Paulo Bittencourt e o Pedro Lessa Speyer, mineiro de Montes Claros, sobrinho do grande Pedro Lessa, o meu ingresso no Correio da Manhã, em substituição ao Álvaro Lins, que estava deixando o jornalismo: iria ser o chefe da Casa Civil do presidente Juscelino Kubitschek.

Rosa praticava aquilo que os alemães chamam de "amizade combatente": atuava a favor do amigo, sem esperar que este lhe pedisse ajuda. E fazia tudo mineiramente, em silêncio.

João Guimarães Rosa: quantas lembranças ficaram fazendo, de mim para mim, a vida mais bela!

Junho de 1992

18 novembro 2006

Blogs, Borat, et Balzac

Celulares descartados estão virando problema ambiental. E os blogs estão ganhando força na França, um país onde escritores como Balzac buscavam inspiração... comendo café... em pó!

Trocar de celular por um modelo mais novo, cheio de recursos, e blog, as grandes manias do momento. Ainda mais agora, que começam a entrar em cena os telefones portáteis de quarta geração.

A troca de celular é cada vez mais rápida, e já está se tornando um problema de meio-ambiente. Os americanos compram um modelo novo a cada 18 meses, os europeus a cada 15, e os japoneses a cada 9. Só os ingleses compram 15 milhões de aparelhos a cada ano. Segundo o Programa de Meio Ambiente da ONU, 50 milhões de celulares são descartados no mundo todo anualmente.

E sem contar que vem por aí uma nova geração: a quarta. Trata-se do celular com acesso a banda larga por preço fixo. Até agora, acessar a internet do aparelhinho era cobrado como luxo extra, e caro. Paga-se uma nota por cada byte.

Já a nova geração permite o acesso à rede por uma taxa fixa, mensal. Assim, fica possível usar serviços como o Skype ou Messenger. Já pensou fazer uma ligação internacional de celular por Skype, sem pagar a taxa exorbitante que as operadoras cobram? E ler e atualizar o seu blog de qualquer lugar, a qualquer momento? Sem falar na hilária aparição do Borat no programa David Letterman que alguém colocou no YouTube.

Liberté, egalité, fraternité ... et bloguer

Segundo a Technorati, o número de blogs no mundo todo passou de 1,6 a 26,6 milhões entre janeiro de 2004 e janeiro de 2006: um crescimento de nada menos do que 16 vezes em dois anos.

O curioso é que os blogs estão virando fenômeno justamente em um país não muito afeito à novidades: a França. Cerca de um terço de todos os blogs europeus são escritos no tradicional idioma de Flaubert, Balzac e Baudelaire.

Movido por café... em pó

Por falar em Balzac, ele era conhecido pela sua paixão pelo café. Conta-se que escrevia até quinze horas por dia, tomando dezenas de xícaras. Sem, é claro, deixar de frequentar a badalada vida social parisiense do início do século 19.

O que descobri agora lendo Mark Pendergrast, autor de uma história desta fascinante bebida, é que Balzac ia de pó de café puro, com pouca água, em jejum... Então sentava e escrevia.

O resultado, pelo menos literário, era espetacular: “Tudo se torna agitado. As idéias rapidamente entram em marcha como batalhões de um grande exército... A cavalaria das metáforas desfila com um magnífico galope... Formas e personagens se levantam...”

Desconhece-se o efeito do amargo pó preto sobre o estômago vazio do autor de As ilusões perdidas.

Confesso que também gosto de bebericar um café enquanto escrevo. Mas não à moda do autor francês, que destilou sua ironia - quase digo 'cafeína' - na monumental A comédia humana - um conjunto de 95 obras acabadas e 48 inacabadas... O meu, por favor, é com leite, e um pouco de espuma.

Uma dúvida assalta minha alma, para usar uma expressão da época: segundo meu amigo Dagomir Marquezi, blog vicia. Já pensou se Balzac tivesse um blog? E um celular de quarta geração? E uma daquelas latas de antigas de Nescau , cheia de... Nescafé? Do bom?

11 novembro 2006

Falha na mensagem

Alguém já notou que as grandes tragédias acontecem por erros de comunicação? Eu estava em Miami, e uma ex-namorada no hotel mais chique da cidade. Foi aí que ocorreu um problema tecnológico. Grave...

No dia que alguém escrever a história das comunicações, dos tempos romanos à era da internet, terá de lembrar dos grandes erros que resultaram em tragédias . Um deles foi o Titanic. Descobriu-se recentemente que o serviço de meteorologia advertiu o célebre transatlântico, pelo telex, de que havia icebergs na sua rota. Acontece que o telex jamais chegou às mãos do capitão: ficou perdido em meio a uma montanha de telegramas enviados ao pessoal da primeira classe, com felicitações, votos de boa viagem, e outras bobagens. Em linguagem de hoje, uma mensagem de alta prioridade se perdeu no meio do spam.

E o desastre com a Challenger? O que aconteceu com a nave espacial americana, que explodiu em pleno vôo, menos de dois minutos após o lançamento, foi basicamente um erro de comunicação. Era um dia frio, e a Nasa sabia que abaixo de uma certa temperatura o lançamento era arriscado porque os anéis de borracha que vedam os foguetes ficam rígidos, e podem arrebentar como um elástico velho. Só que naquela manhã a temperatura estava bem no limite. A Nasa consultou o fabricante dos foguetes, que respondeu, através de fax, que não haveria maiores problemas. A prova: um gráfico, feito à mão, que mais tarde se revelou mal feito, e que não revelava a dimensão do problema. Resultado: sete mortos e bilhões de dólares de prejuízo.

Também enfrentei um problema de comunicação em minha última viagem aos Estados Unidos. Tenho uma ex-namorada americana (Pris, para omitir o nome verdadeiro, e fazer uma homenagem à célebre andróide de Blade Runner representada por Darryl Hannah), com quem me comunico muito por email. Temos um entendimento bom, e vivemos fazendo brincadeiras um com o outro. Coisas de ex-.

Coincidiu que ela ia estar em Miami bem quando eu tinha de voltar ao Brasil. Como meu vôo saia de Miami, e ela estaria hospedada no hotel mais novo, caro e metido da cidade, participando de um desses eventos de empresa, perguntei se poderia bancar o maridão. (Ela está solteira). Ganharia duas noites no badalado cinco estrelas de South Beach. “Claro”, respondeu ela por email. Peguei um avião no aeroporto de La Guardia, em Nova York, e como sempre, enquanto aguardava o vôo, entrei na internet e chequei os emails. “Estou chegando”, mandei um pra ela. Achei o endereço do hotel no Google e anotei na Palm.

Até pouco tempo, as redes sem fio nos aeroportos eram de graça. Agora, já estão cobrando até pela energia elétrica. Como eu não queria pagar cinco dólares só pra enfiar um plug na tomada, deixei o notebook na bateria. É um modelo barato, de 500 dólares, e seu único problema é que a bateria dura pouco. Fora isso, tem wi-fi e funciona bem. Fiquei atualizando o blog até acabar a bateria. E embarquei rumo a Miami.

Cheguei no hotel por volta da meia-noite e me dirigi ao concierge: “Minha mulher está hospedada para um evento da empresa..." Como era mesmo o nome da agência de publicidade onde ela trabalha em Dallas? Enfim, enrolei, tal e coisa, e coisa e tal. Afinal, será que poderiam checar o número do quarto dela e anunciar minha chegada? Como eu já estava em fim de viagem, tinha sobrado pouca roupa, na verdade apenas uma camiseta branca de manga comprida, dessas que parecem mais um pijama. Toda amassada. Mas parece que em Miami ninguém liga pra essas coisas. Olhei em volta. Sim, tinha gente mais mal vestida que eu.

O concierge, sempre muito educado, achou o quarto da Pris e ligou. Ninguém atendeu. Claro, ninguém fica no quarto, tendo toda a vida noturna de South Beach à disposição, inclusive o bar onde meu amigo Fernando toca música brasileira. Ela adora música brasileira. Deve ter levado o pessoal do trabalho pra ver o show do Fernandão, pensei, todo otimista.

Mas já era tarde, e eu ali com as malas. Tentei o celular. Várias vezes. Caixa postal. Vários torpedos. Nada. Fiquei andando de um lado para o outro, um tempão, tentando os vários números que tinha no meu celular. Como estava com um GSM novo, com chip local, tinha diversos números , depois de diversas trocas de cartão SIM, backups e sincronizações. Tentei todos, mas sempre caía em alguma caixa postal.

De repente vi alguém chegando. Parecia a Pris. Eu estava sem óculos, a gente não se via há anos, e nunca tinho visto ela vestida tipo “evento de negócios”. Achei que só podia ser ela. "Aí vem minha esposa”, disse feliz ao concierge. Não, não era. A mulher passou batido. O concierge me olhou como quem pensa: “Então o cara não conhece a própria esposa... Qual será o golpe?”

“Sabe, bem, na verdade é minha ex-mulher, e a gente não se vê faz anos...", enrolei com a maior cara de pau. "E mulher tem esse negócio: bem vestidas todas se parecem, não acha?”, brinquei. Não, ela parecia não ter achado a menor graça.

Foi então que lembrei que a Pris não usa mais celular. Usa Blackberry. Muita gente nos Estados Unidos já aposentou o celular em troca da nova mania. Àquela hora (uma da madrugada, eu morrendo de fome e sono), só conseguiria me comunicar com ela mandando um email para o Blackberry. “Será que tem tomada aqui no lobby pra recarregar meu notebook? Minha bateria morreu”, perguntei. Não, não havia tomada no lobby do hotel mais chique e caro de Miami. Tinha piano de cauda, esculturas de mármore, janelas de vidro que davam para a piscina ou para o mar, arranjos de plantas exóticas, tudo menos uma simples tomada... E pior, o concierge cada vez mais desconfiado. “Ah, a bateria morreu?”, podia ler seus pensamentos. “Você vai ver o que vai acontecer a você quando eu chamar a segurança...”

Mas o bacana da democracia americana é que todo mundo é tratado por igual, com o mesmo respeito, principalmente se você tem um cartão de crédito. O concierge disse que eu poderia acessar a internet no "business center", que é como eles chamam a sala onde ficam os computadores. Subi em busca da tomada perdida.

Nada de tomada no business center. Um monte de computador, nenhuma tomada disponível. Não ia arriscar mexer nos fios e dar um curto-circuito no badalado cinco estrelas de South Beach. Entrei na internet pelo sistema do hotel, tendo para isso, obviamente, que usar o cartão de crédito. Lá estava a resposta da Pris à mensagem que eu mandara do La Guardia: “Você tá falando sério? Pensei que estivesse brincando”. Não, ela não contava comigo. E não era o lugar e o momento de "discutir a relação".

Foi então que caiu a ficha: ocorrera uma grave falha de comunicação, um erro tecnológico, um desastre comparável ao Titanic ou à Challenger. Precisava de um plano B.

Desci, e para minha sorte, havia acabado de acontecer a troca de turno: já era outro concierge. Perguntei o preço do quarto mais simples. Uma noite era o preço de um monitor de cristal líquido, 19 polegadas, com entrada DVI e tudo.

Fiz uma longa pausa. “Sabe, tem um problema”, disse com cara de contrariado. “Vocês não tem tomada no lobby, e fui lá em cima inspecionar, nem no business center. Uso programas muito complexos, que usam muita memória e energia. Preciso recarregar a bateria frequentemente”. O concierge parecia desolado. “Mas temos acesso banda larga nos quartos", disse ele, quase pedindo desculpas. "Mas eu não quero ficar trabalhando no quarto. Só trabalho ouvindo música. Quero trabalhar no lobby, ao lado do piano", menti. Afinal, até então, o pianista, pra lá de careta, só tinha tocado versões chorosas de La vie en rose, Besame mucho, e Tema de Lara.

"Como vai ser quando acabar minha bateria? Vou ter de subir ao quarto? Costumo trabalhar horas a fio. Um hotel desta categoria deveria pensar nestes detalhes", disse como quem não tivesse aprovado as instalações. O concierge garantiu que iria encaminhar a reclamação à gerência assim que amanhecesse.

Com cara de decepcionado com mais esta mancada dos nossos irmãos do norte, chamei ele meio de lado, e bem à brasileira, perguntei: “Vem cá, onde é que fica o Ibis mais próximo?”

No dia seguinte almocei com a Pris. E comprei o monitor LCD de 19 polegadas. É ótimo. Tem bem mais definição que o meu antigo Sony.

06 outubro 2006

As armas secretas da música

Todo mundo tem um disco especial, um LP de vinil (também conhecido como bolacha), que trata como se fosse a coisa mais preciosa do mundo

George Bush pode não ter encontrado as tais armas de destruição em massa no Iraque. Mas o jornal britânico The Guardian pediu a 49 músicos, produtores e escritores, que revelassem suas armas secretas, suas preciosidades musicais guardadas à sete chaves. O resultado, uma compilação publicada na edição de 6 de outubro de 2006, ficou tão boa, que aqui reproduzo o link. É uma coleção de 49 raridades que raramente chegaram à parada das dez mais da Billboard. Mas gente como Chrissie Hynde (ex-Pretenders), Nelly Furtado, e Roger McGuinn, ouviram essas coisas até furar o vinil. Como todo mundo tem um álbum assim, o Guardian deixou o número 50 por conta dos leitores. Quem enviar a melhor dica, ganha 500 libras em CDs (o equivalente a 1.000 dólares, ou 2.400 reais). Pode parecer muito no Brasil, mas é bom lembrar que na Inglaterra um CD está por volta de 20 libras.

Richard Hawley, por exemplo, revelou que sua bolacha preferida é a Missa em fá menor, disco de 1968, da banda americana "Electric Prunes" ("Ameixas elétricas"), que ficou conhecida pela faixa "Kyrie Eleison" da trilha sonora do filme Easy Rider (Sem destino), uma versão bem psicodélica da milenar (ou seria bilenar?) missa católica.

Confesso que é uma das minhas bolachas favoritas também. Tenho o vinil da trilha desde tempos imemoriais. Os Electric Prunes começam cantando a missa como um coro beneditino, muito afinado, cantando à capela. Mas quando você pensa que pegou o disco errado, que em vez do Easy Rider você pegou foi a missa de domingo do Padre Marcelo, eis que surge um trio de guitarra, baixo e bateria quebrando tudo. Uma guitarra lisérgica lembra Jimi Hendrix. Soa totalmente surrealista ainda hoje. Imagine em 1969, quando o filme foi lançado.

A trilha toda do Easy Rider é muito boa: inclui, entre outros, "If Six Was Nine", faixa do álbum Axis, Bold as Love, do Jimi Hendrix, "Born to be Wild", e "The Pusher" do Steppenwolf, o próprio Roger McGuinn (ex-Byrds), e mais uma porção de gente boa que sumiu desde que o filme foi lançado, ainda no milênio passado. Ouço sempre. Ou ouvia, até quebrar o toca-disco. Mas recentemente encontrei o CD no quarto do filho adolescente de uma ex-namorada. E claro, copiei para o meu iPod.

Já a cantora canadense de ascendência portuguesa Nelly Furtado mencionou o disco do Tom Zé, de 1998, Com defeito de fabricação, como melhor exemplo de world music.

O editor da seção Rock&pop do Guardian é bom nestas coisas. Na edição de 16 de julho ele já tinha publicado uma matéria especial, intitulada 50 álbuns que mudaram a música, uma compilação de discos que fizeram a histório do rock e do pop.

Juntas, as duas matérias valem por uma verdadeira enciclopédia, com uma preciosa seleção de clássicos e raridades do universo pop. O cara é o próprio Diderot do rock & roll.

Confesso que estou com vontade de mandar a minha sugestão, o meu álbum secreto preferido, e ver se faturo os CDs. É o disco da Zizi Possi onde ela regravou Nunca, o grande clássico de Lupicínio Rodrigues, o grande mestre da dor de cotovelo, e que se não me falha a memória, é mais ou menos assim:

Nunca, nem que o mundo caia sobre mim
nem se Deus mandar, nem mesmo assim
as pases contigo, farei

Nunca, quando a gente perde uma ilusão
Tem de sepultar o coração
Como eu sepultei

Saudade, diga a esta moça por favor
Como foi sincero o meu amor
Como eu a adorei
Tempos atrás

Saudade, não esqueça também de dizer
Que é ela que me faz adormecer
Pra que eu viva em paz


Ouço sempre, principalmente quando brigo com uma namorada. Claro, já está todo riscado. Do jeito que as coisas andam, acho melhor comprar logo o CD.


As armas secretas do rock

50 álbuns que mudaram a música

11 setembro 2006

Chansong

Uma canção à maneira de Henri Salvador

Ici à São Paulo
C'est un jour comme les autres
Sur le toit
Au soleil couchant

C'est un jour de vague à l'âme
]'ai le nez à la fenêtre
Je regard les bâtimentes

L’autre jour, j’ai dit que tu es très charmant
Mais c’était un mélange
Avant la leçon de français

Après la class de ‘Masculin et féminin’
J’ai compris
Que vraiment je vois dire que tu es charmante, avec un ‘e’
Parce que, plus que charmante
Tu es douce et très féminine

C’est un jour comme les autres
Un de ces jours qui n' ont ni rime ni raison
Une de tous ces jours qui n'osent pas dire leur nom

J’étude la ‘Grammaire Progressive de Français’
Et j’écoute Henri Salvador
Parce que j’ai le blues de toi

24 agosto 2006

De línguas, sanguessugas e pizza

Enfim, a solução do enigma: as tão esperadas traduções da frase da semana

O professor Marco Aurélio Metatarso preparou algumas alternativas para a tradução da frase da semana: “Relator diz que CPI das sanguessugas não vai terminar em pizza”.

Vale lembrar que a expressão 'terminar em pizza' nasceu de uma polêmica entre os jornalistas Marco Chiaretti, então na Folha de S. Paulo, e Mino Carta, então diretor da Isto É. Depois de uma calorosa troca de desaforos (por alguma razão hoje esquecida), os dois resolveram terminar civilizadamente a discussão em uma cantina, tomando um bom vinho, e comendo uma pizza, bem à moda paulistana. Nasceu assim, de forma inocente, a expressão que viria a tomar proporções inesperadas no campo da política.


Portanto, em inglês ficaria assim:
The relater says that the Congress Leeches Hearing will not end up in eating pizza Sunday night in an italian restaurant.


É claro que 'blood-suckers' também poderia ser usado, mas como se trata do Congresso Nacional achei que 'leeches' daria um tom mais oficoso à coisa.

Em francês:
Le rapporteur dit que la Comission Parlamentaire de l'Inquisition des sangssuces ne va pas se terminer en pizza avec du bon vin au le bistrô.


Uma leitora propõe as seguintes soluções, seguidas de um interessante comentário sociolingüístico:
Reporter says bloodsucker's parliamentary inquiry commission will not end up in a pizza party. He would rather prefer a Blood Mary cocktail party and an ambulance to bring each one safely back home.

Le rapporteur de la commission parlamentaire de investigacion sur les boiveurs de sang ne finirà pas dans une fête a pizza. Il aimerà mieux une fête au Marie Sanguant et une ambulance pour bien conduire chaqu'un chez soi.
Fica demonstrada assim a origem euro-asiática desses costumes, que nós, tupiniquins, aimorés e tupinambás, apenas copiamos.

Cunhã bebe sangue de gente, mas não suga ninguém.

Como nem todos conhecem o significado exato da palavra Cunhã, tomei a liberdade de copiar a definição do meu Houaiss eletrônico:

Cunhã

substantivo feminino

Regionalismo: Amazônia.
1 mulher
2 mulher jovem; cunhantã
3 a mulher do caboclo

Fica assim cabalmente demonstrado que mesmo os mais escabrosos escândalos da política brasileira são fácil e plenamente traduzíveis para outras línguas e culturas.

Embora 'terminar em pizza' seja, portanto, uma expressão brasileira (tendo nascido deste hábito tão paulistano, a tradicional pizza numa noite de domingo), outras línguas têm expressões similares. Em alemão, por exemplo, se diz 'ir pro gato', numa alusão aos restos da comida que frequentemente vão parar no prato dos bichanos.

Certamente deve haver similar em inglês e francês.

Algum tem alguma sugestão?

18 agosto 2006

Lingua franca

A partir desta semana, passamos a contar com a participação do professor Marco Aurélio Metatarso, especialista em linguística. Em sua coluna de estréia, ele propõe um exercício de tradução

Lendo os jornais de hoje me ocorreu um excelente exercício para ampliar nosso vocabulário. A idéia é traduzir - ou pelo menos tentar - o noticiário de política no Brasil para outras línguas.

Por exemplo, caro leitor. Vou propor a você um exercício. Tente traduzir para o inglês e para o francês a seguinte sentença: "Relator diz que CPI das sanguessugas não vai terminar em pizza".

Tente. A resposta estará na próxima edição de Lingua Franca. Não perca.

17 agosto 2006

O novo CD de Henri Salvador

O músico franco-brasileiro nascido na Guiana comemora 89 anos lançando um novo CD, com arranjos de Jaques Morelenbaum

Todo mundo lembra de Dans mon îsle, a linda canção de Henri Salvador gravada nos anos 80 por Caetano Veloso, certo? O músico, nascido na Guiana, mas que fez toda sua carreira na França, ao completar 89 anos, está terminando de gravar um novo CD. O trabalho tem a participação de Gil e Caetano, e uma nova versão de Dans mon îsle, desta vez cantada pelo próprio Henri Salvador, com arranjos do violoncelista e arranjador Jaquinho Morelenbaum.

Henri Salvador nasceu em 17 de julho de 1917 em Sinnamary, na Guiana Francesa, filho de pai de origem espanhola e mãe caribenha. A família se mudou para Paris em 1924, e ainda adolescente Henri descobriu a música através de Louis Armstrong e Duke Ellington.

Começava então a carreira de um compositor muito especial, exatamente pela mistura excêntrica de gênenros, do jazz à bossa nova, dos ritmos caribenhos ao blues, tudo devidamente acompanhado da melhor poesia francesa. Na França, fez parcerias com poetas de grande prestígio, como Boris Vian, e desde cedo criou laços estreitos com o cenário musical brasileiro. Seu maior sucesso no Brasil foi Dans mon île na voz de Caetano Veloso.

Ele gravou seu primeiro disco solo em 1947 e compôs diversas trilhas para o cinema. Em mais de 50 anos gravou dezenas de LPs, e recebeu dezenas de prêmios, se apresentando no mundo todo, mas principalmente na França. Ele e sua mulher, Jacqueline, criaram seu próprio selo de distribuição ainda em 1972. Com a morte de Jacqueline em 1976, Henri se ausentou por algum tempo dos palcos. Mas em 1982 já estva fazendo sucesso de novo, e em 1994 publica sua autobiografia Attention ma vie.

Em 2001 lançou Chambre avec vue, com o qual voltou a fezer grande sucesso depois de alguns anos de ostracismo, e em 2003 Ma chère et tendre. Em 2005 foi escolhido padrinho do Ano do Brasil na França, e se apresentou com Gilberto Gil para um público de 70 mil pessoas em Paris.

Em abril deste ano voltou mais uma vez ao Rio para começar as gravações do novo CD, em fase final de mixagem. Deixou suas mãos gravadas na Calçada da Fama, em Ipanema, e reencontrou outro músico franco-brasileiro, o produtor George Henry. Eles não se viam desde a Segunda Guerra Mundial, quando trabalharam juntos na Orquestra de Ray Ventura.

Tanto Chambre avec vue como Ma chère et tendre (leia resenha de Apoenan Rodrigues na Isto É) estão disponíveis na Amazon.com. E o site oficial do artista é www.henri-salvador.com

Dans mon île
(M. Pon - H. Salvador)

Dans mon île
Ah comme on est bien
Dans mon île
On n'fait jamais rien
On se dore au soleil
Qui nous caresse
Et l'on paresse
Sans songer à demain
Dans mon île
Ah comme il fait doux
Bien Tranquille
Près de ma doudou
Sous les grands cocotiers qui se balancent
En silence, nous rêvons de nous
Dans mon île
Un parfum d'amour
Se faufile
Dès la fin du jour
Elle accourt me tendant ses bras dociles
douces et fragiles
Dans ses plus beaux atours
Ses yeux brillent
Et ses cheveux bruns
S'eparpillent
Sur le sable fin
Et nous jouons au jeu d'Adam et Eve
Jeu facile
Qu'ils nous ont appris
Car mon île c'est le paradis