06 outubro 2006

As armas secretas da música

Todo mundo tem um disco especial, um LP de vinil (também conhecido como bolacha), que trata como se fosse a coisa mais preciosa do mundo

George Bush pode não ter encontrado as tais armas de destruição em massa no Iraque. Mas o jornal britânico The Guardian pediu a 49 músicos, produtores e escritores, que revelassem suas armas secretas, suas preciosidades musicais guardadas à sete chaves. O resultado, uma compilação publicada na edição de 6 de outubro de 2006, ficou tão boa, que aqui reproduzo o link. É uma coleção de 49 raridades que raramente chegaram à parada das dez mais da Billboard. Mas gente como Chrissie Hynde (ex-Pretenders), Nelly Furtado, e Roger McGuinn, ouviram essas coisas até furar o vinil. Como todo mundo tem um álbum assim, o Guardian deixou o número 50 por conta dos leitores. Quem enviar a melhor dica, ganha 500 libras em CDs (o equivalente a 1.000 dólares, ou 2.400 reais). Pode parecer muito no Brasil, mas é bom lembrar que na Inglaterra um CD está por volta de 20 libras.

Richard Hawley, por exemplo, revelou que sua bolacha preferida é a Missa em fá menor, disco de 1968, da banda americana "Electric Prunes" ("Ameixas elétricas"), que ficou conhecida pela faixa "Kyrie Eleison" da trilha sonora do filme Easy Rider (Sem destino), uma versão bem psicodélica da milenar (ou seria bilenar?) missa católica.

Confesso que é uma das minhas bolachas favoritas também. Tenho o vinil da trilha desde tempos imemoriais. Os Electric Prunes começam cantando a missa como um coro beneditino, muito afinado, cantando à capela. Mas quando você pensa que pegou o disco errado, que em vez do Easy Rider você pegou foi a missa de domingo do Padre Marcelo, eis que surge um trio de guitarra, baixo e bateria quebrando tudo. Uma guitarra lisérgica lembra Jimi Hendrix. Soa totalmente surrealista ainda hoje. Imagine em 1969, quando o filme foi lançado.

A trilha toda do Easy Rider é muito boa: inclui, entre outros, "If Six Was Nine", faixa do álbum Axis, Bold as Love, do Jimi Hendrix, "Born to be Wild", e "The Pusher" do Steppenwolf, o próprio Roger McGuinn (ex-Byrds), e mais uma porção de gente boa que sumiu desde que o filme foi lançado, ainda no milênio passado. Ouço sempre. Ou ouvia, até quebrar o toca-disco. Mas recentemente encontrei o CD no quarto do filho adolescente de uma ex-namorada. E claro, copiei para o meu iPod.

Já a cantora canadense de ascendência portuguesa Nelly Furtado mencionou o disco do Tom Zé, de 1998, Com defeito de fabricação, como melhor exemplo de world music.

O editor da seção Rock&pop do Guardian é bom nestas coisas. Na edição de 16 de julho ele já tinha publicado uma matéria especial, intitulada 50 álbuns que mudaram a música, uma compilação de discos que fizeram a histório do rock e do pop.

Juntas, as duas matérias valem por uma verdadeira enciclopédia, com uma preciosa seleção de clássicos e raridades do universo pop. O cara é o próprio Diderot do rock & roll.

Confesso que estou com vontade de mandar a minha sugestão, o meu álbum secreto preferido, e ver se faturo os CDs. É o disco da Zizi Possi onde ela regravou Nunca, o grande clássico de Lupicínio Rodrigues, o grande mestre da dor de cotovelo, e que se não me falha a memória, é mais ou menos assim:

Nunca, nem que o mundo caia sobre mim
nem se Deus mandar, nem mesmo assim
as pases contigo, farei

Nunca, quando a gente perde uma ilusão
Tem de sepultar o coração
Como eu sepultei

Saudade, diga a esta moça por favor
Como foi sincero o meu amor
Como eu a adorei
Tempos atrás

Saudade, não esqueça também de dizer
Que é ela que me faz adormecer
Pra que eu viva em paz


Ouço sempre, principalmente quando brigo com uma namorada. Claro, já está todo riscado. Do jeito que as coisas andam, acho melhor comprar logo o CD.


As armas secretas do rock

50 álbuns que mudaram a música

11 setembro 2006

Chansong

Uma canção à maneira de Henri Salvador

Ici à São Paulo
C'est un jour comme les autres
Sur le toit
Au soleil couchant

C'est un jour de vague à l'âme
]'ai le nez à la fenêtre
Je regard les bâtimentes

L’autre jour, j’ai dit que tu es très charmant
Mais c’était un mélange
Avant la leçon de français

Après la class de ‘Masculin et féminin’
J’ai compris
Que vraiment je vois dire que tu es charmante, avec un ‘e’
Parce que, plus que charmante
Tu es douce et très féminine

C’est un jour comme les autres
Un de ces jours qui n' ont ni rime ni raison
Une de tous ces jours qui n'osent pas dire leur nom

J’étude la ‘Grammaire Progressive de Français’
Et j’écoute Henri Salvador
Parce que j’ai le blues de toi

24 agosto 2006

De línguas, sanguessugas e pizza

Enfim, a solução do enigma: as tão esperadas traduções da frase da semana

O professor Marco Aurélio Metatarso preparou algumas alternativas para a tradução da frase da semana: “Relator diz que CPI das sanguessugas não vai terminar em pizza”.

Vale lembrar que a expressão 'terminar em pizza' nasceu de uma polêmica entre os jornalistas Marco Chiaretti, então na Folha de S. Paulo, e Mino Carta, então diretor da Isto É. Depois de uma calorosa troca de desaforos (por alguma razão hoje esquecida), os dois resolveram terminar civilizadamente a discussão em uma cantina, tomando um bom vinho, e comendo uma pizza, bem à moda paulistana. Nasceu assim, de forma inocente, a expressão que viria a tomar proporções inesperadas no campo da política.


Portanto, em inglês ficaria assim:
The relater says that the Congress Leeches Hearing will not end up in eating pizza Sunday night in an italian restaurant.


É claro que 'blood-suckers' também poderia ser usado, mas como se trata do Congresso Nacional achei que 'leeches' daria um tom mais oficoso à coisa.

Em francês:
Le rapporteur dit que la Comission Parlamentaire de l'Inquisition des sangssuces ne va pas se terminer en pizza avec du bon vin au le bistrô.


Uma leitora propõe as seguintes soluções, seguidas de um interessante comentário sociolingüístico:
Reporter says bloodsucker's parliamentary inquiry commission will not end up in a pizza party. He would rather prefer a Blood Mary cocktail party and an ambulance to bring each one safely back home.

Le rapporteur de la commission parlamentaire de investigacion sur les boiveurs de sang ne finirà pas dans une fête a pizza. Il aimerà mieux une fête au Marie Sanguant et une ambulance pour bien conduire chaqu'un chez soi.
Fica demonstrada assim a origem euro-asiática desses costumes, que nós, tupiniquins, aimorés e tupinambás, apenas copiamos.

Cunhã bebe sangue de gente, mas não suga ninguém.

Como nem todos conhecem o significado exato da palavra Cunhã, tomei a liberdade de copiar a definição do meu Houaiss eletrônico:

Cunhã

substantivo feminino

Regionalismo: Amazônia.
1 mulher
2 mulher jovem; cunhantã
3 a mulher do caboclo

Fica assim cabalmente demonstrado que mesmo os mais escabrosos escândalos da política brasileira são fácil e plenamente traduzíveis para outras línguas e culturas.

Embora 'terminar em pizza' seja, portanto, uma expressão brasileira (tendo nascido deste hábito tão paulistano, a tradicional pizza numa noite de domingo), outras línguas têm expressões similares. Em alemão, por exemplo, se diz 'ir pro gato', numa alusão aos restos da comida que frequentemente vão parar no prato dos bichanos.

Certamente deve haver similar em inglês e francês.

Algum tem alguma sugestão?

18 agosto 2006

Lingua franca

A partir desta semana, passamos a contar com a participação do professor Marco Aurélio Metatarso, especialista em linguística. Em sua coluna de estréia, ele propõe um exercício de tradução

Lendo os jornais de hoje me ocorreu um excelente exercício para ampliar nosso vocabulário. A idéia é traduzir - ou pelo menos tentar - o noticiário de política no Brasil para outras línguas.

Por exemplo, caro leitor. Vou propor a você um exercício. Tente traduzir para o inglês e para o francês a seguinte sentença: "Relator diz que CPI das sanguessugas não vai terminar em pizza".

Tente. A resposta estará na próxima edição de Lingua Franca. Não perca.

17 agosto 2006

O novo CD de Henri Salvador

O músico franco-brasileiro nascido na Guiana comemora 89 anos lançando um novo CD, com arranjos de Jaques Morelenbaum

Todo mundo lembra de Dans mon îsle, a linda canção de Henri Salvador gravada nos anos 80 por Caetano Veloso, certo? O músico, nascido na Guiana, mas que fez toda sua carreira na França, ao completar 89 anos, está terminando de gravar um novo CD. O trabalho tem a participação de Gil e Caetano, e uma nova versão de Dans mon îsle, desta vez cantada pelo próprio Henri Salvador, com arranjos do violoncelista e arranjador Jaquinho Morelenbaum.

Henri Salvador nasceu em 17 de julho de 1917 em Sinnamary, na Guiana Francesa, filho de pai de origem espanhola e mãe caribenha. A família se mudou para Paris em 1924, e ainda adolescente Henri descobriu a música através de Louis Armstrong e Duke Ellington.

Começava então a carreira de um compositor muito especial, exatamente pela mistura excêntrica de gênenros, do jazz à bossa nova, dos ritmos caribenhos ao blues, tudo devidamente acompanhado da melhor poesia francesa. Na França, fez parcerias com poetas de grande prestígio, como Boris Vian, e desde cedo criou laços estreitos com o cenário musical brasileiro. Seu maior sucesso no Brasil foi Dans mon île na voz de Caetano Veloso.

Ele gravou seu primeiro disco solo em 1947 e compôs diversas trilhas para o cinema. Em mais de 50 anos gravou dezenas de LPs, e recebeu dezenas de prêmios, se apresentando no mundo todo, mas principalmente na França. Ele e sua mulher, Jacqueline, criaram seu próprio selo de distribuição ainda em 1972. Com a morte de Jacqueline em 1976, Henri se ausentou por algum tempo dos palcos. Mas em 1982 já estva fazendo sucesso de novo, e em 1994 publica sua autobiografia Attention ma vie.

Em 2001 lançou Chambre avec vue, com o qual voltou a fezer grande sucesso depois de alguns anos de ostracismo, e em 2003 Ma chère et tendre. Em 2005 foi escolhido padrinho do Ano do Brasil na França, e se apresentou com Gilberto Gil para um público de 70 mil pessoas em Paris.

Em abril deste ano voltou mais uma vez ao Rio para começar as gravações do novo CD, em fase final de mixagem. Deixou suas mãos gravadas na Calçada da Fama, em Ipanema, e reencontrou outro músico franco-brasileiro, o produtor George Henry. Eles não se viam desde a Segunda Guerra Mundial, quando trabalharam juntos na Orquestra de Ray Ventura.

Tanto Chambre avec vue como Ma chère et tendre (leia resenha de Apoenan Rodrigues na Isto É) estão disponíveis na Amazon.com. E o site oficial do artista é www.henri-salvador.com

Dans mon île
(M. Pon - H. Salvador)

Dans mon île
Ah comme on est bien
Dans mon île
On n'fait jamais rien
On se dore au soleil
Qui nous caresse
Et l'on paresse
Sans songer à demain
Dans mon île
Ah comme il fait doux
Bien Tranquille
Près de ma doudou
Sous les grands cocotiers qui se balancent
En silence, nous rêvons de nous
Dans mon île
Un parfum d'amour
Se faufile
Dès la fin du jour
Elle accourt me tendant ses bras dociles
douces et fragiles
Dans ses plus beaux atours
Ses yeux brillent
Et ses cheveux bruns
S'eparpillent
Sur le sable fin
Et nous jouons au jeu d'Adam et Eve
Jeu facile
Qu'ils nous ont appris
Car mon île c'est le paradis

16 agosto 2006

O Brooklyn Museum

O Museu do Brooklyn é um dos maiores e mais antigos dos Estados Unidos.

Ele era o correspondente ao Metropolitan quando o Brooklyn era uma cidade independente. Quando se juntou à Nova York, foi ofuscado pelo Met.

Não que não tenha seus encantos. O acervo permanente tem nada menos do que a Mulher em cinza de Picasso. É que com o Met ninguém pode.

Mas há três anos ganhou uma reforma e tornou-se um museu bastante original, muito vivo e ligado à comunidade da região: o Brooklyn, o bairro onde Woody Allen nasceu, e que celebrizou em alguns de seus filmes, é conhecido pela sua diversidade étnica e cultural.




Ao contrário do Met e do Louvre, museus muito assediados por turistas (e que dá a eles um ar blasé, para não dizer entojado), o do Brooklyn é bem descontraído e amigável.

O museu tem mostras temporárias de altíssimo nível: recentemente estavam em cartaz uma de arte e objetos africanos e outra sobre o Egito antigo.

Veja as fotos do museu do Brooklyn.

05 agosto 2006

A new CD by Henri Salvador

The French-Brazilian composer will release a new CD

Henri Salvador was born in French Guyana but made all his career in France. Recently he recorded two CDs, Chambre avec vue e Ma chère et tendre, with great success (many of his records are available at Amazon.com). One of his many beautiful songs, Dans mon îsle, was recorded in 1981 by Caetano Veloso, the great Brazilian chanssonier, just to become an instant hit.

Henri Salvador, now 89 years-old, is finishing recording a new CD, produced and arranged by the great Brazilian musician Jaques Morelenbaum, who has already worked with Tom Jobim, Caetano Veloso and Ryichi Sakamoto. The CD will bring a fresh version of Dans mon îsle, chanted by Henri Salvador himself. It will also feature Caetano Veloso and Gilberto Gil. What follows is an English translation for the song (which I have also translated to Portuguese; see below).

In my Island
(M. Pon – H. Salvador)

In my island
Oh, it’s so cool
In my island
There’s nothing to do
But to lay on the beach
And be caressed by the sun
With laziness
And don’t care about a thing

On my island
Oh, it's so good
It's very peaceful
Close to my Doudou
Under the big coconut trees
That swing
We dream of us
In silence

On my island
A perfume of love
Secretly finds its way at sunset

And she gives me her sweet arms
Sweet and fragile

Among her beauties
Her bright eyes
And brown hair
Scattered over the thin sand

And we play of Adam and Eve
An easy game
That makes us so pleased

Because my island
Is the paradise

02 agosto 2006

Na minha ilha

Uma versão para Dans mon île

Uma versão bastante livre para Dans mon île, canção de Henri Salvador gravada por Caetano Veloso no início dos anos 80. O franco-brasileiro Henri Salvador, nascido na Guiana Francesa, que está com 89 anos, está gravando um novo CD produzido por Jaques Morelenbaum. Dans mon île, que é de 1957, está ganhando nova versão cantada pelo próprio compositor.

Na minha ilha
(M. Pon / H. Salvador)
(Versão de Caio Túlio Perônio)

Na minha ilha
Ah, como é bom
Na minha ilha
A gente se doura ao sol
Que nos acaricia
E a preguiça
Fica pra depois ...
Na minha ilha
Ah, como é doce
Fico em paz
Perto do meu amor
Sob os coqueiros
Que balançam
A gente sonha
Sonha em silêncio
Na minha ilha
Um perfume de amor
Se insinua
Ao pôr do sol
E ela me estende seus braços dóceis
Doces e frágeis
Ela é demais
Seus olhos brilham
E os cabelos castanhos
Se espalham
Pela areia fina
E brincamos de Adão e Eva
Jogo fácil
Que nos deixa meio ...
Sei lá
Pois minha ilha
É o paraíso.

31 julho 2006

O blog dos chefes

Presidentes de grandes corporações como Sun, IBM e General Motors já aderiram à nova mídia

O grande lance de 1448 foi uma tecnologia chamada ‘tipo móvel’ inventada por Johannes Gutenberg. Cinco séculos depois, o grande lance de 2001 foi o primeiro software de blog, o Movable Type, ainda hoje o mais usado pelos blogueiros profissionais.

As duas invenções foram igualmente revolucionárias. Quem diz é a Economist, a revista mais influente de economia e negócios do mundo no caderno especial A Survey of New Media. “O blog”, diz a revista, “talvez marque o início da transição para uma nova era: a era da mídia pessoal ou participativa”.

O blog é resultado de uma revolução dentro da revolução: nasceu do crescimento da internet de banda larga, que tornou mais fácil ‘carregar’ a rede (ou fazer o upload). Com isso, as pessoas passaram a criar conteúdo ao invés de apenas visitar sites com as quais não podem interagir.

Uma pesquisa recente revelou que 57% dos adolescentes americanos criam conteúdo para a rede, de texto a fotos, passando por música e vídeo. Isto mostra que as pessoas não se contentam mais em consumir mídia - querem participar dela.

Como o tipo móvel de Gutenberg, as conseqüências da nova revolução serão sentidas gradualmente, a longo prazo. A nova mídia participativa, diz David Sifry, fundador da Technorati, um mecanismo de busca de blogs, fez as fronteiras entre autores e audiência mais fluidas. O formato tradicional da palestra, ‘um-para-muitos’, torna-se mais uma conversação entre uma comunidade de iguais.

A maioria das pessoas não se dá conta de como é revolucionária esta mudança, diz David Weinberger, do Berkman Center for Internet and Society da Universidade de Harvard. “Transformar instituições em conversação é altamente revolucionário. Instituições são fechadas, pressupõe uma hierarquia, e dificilmente assumem o fato de que são falíveis. Conversas, por outro lado, são abertas, assumem a eqüidade entre as partes, e aceitam que cometem erros”.

Agora o blog está chegando às empresas. “Quer falar com o presidente da sua empresa?”, pergunta a revista Info de julho. “Abra o browser e acesse o blog dele”. Segundo a revista, o presidente de um banco estrangeiro instalado há poucos anos no Brasil fez isso em abril. Só no primeiro 'post', dando boas vindas aos funcionários, recebeu 400 comentários. CEOs de empresas como Sun, IBM, e General Motors já adotaram blogs para se comunicar de forma direta e interativa com funcionários.

Entre as que mais usam a nova mídia estão, como não poderia deixar de ser, as empresas de telecomunicações, entre elas a Nokia, uma das mais inovadoras empresas de tecnologia do planeta.

Mas o que é exatamente um blog, e afinal e porque ele é diferente de tudo o que você já viu na internet?

Não perca o próximo capítulo. Ou para usar a linguagem dos blogueiros, o próximo post.

13 julho 2006

Esqueça o CD

Uma coisa boa de se fazer quando se viaja é ouvir rádio. Em Nova York ouvi um programa sensacional: a Filarmônica de Nova York tocando ao vivo trilhas sonoras de Bernard Herrmann e John Williams para filmes de Alfred Hitchcock e Steven Spielberg. Narração de Martin Scorcese e do próprio Spielberg. Um programinha pra ninguém botar defeito.

Quem transmite toda semana os concertos da Filarmônica de Nova York é a WFMT (www.wfmt.com), uma rádio que resolveu aproveitar o renascimento deste meio de comunicação, causado, em parte, pelo sucesso das rádios satélite no Estados Unidos.

Mas o mais curioso é que os concertos da Filarmônica de NY estão fazendo muito sucesso também sabe onde? No iTunes, o serviço de música online da Apple. Os concertos da orquestra são gravados pela Deutsche Grammophone, editados e vendidos em CD. Mas o CD parece ser uma mídia alternativa, para o pessoal da velha guarda: o maior sucesso mesmo é o download digital no iTunes, onde os programas também são 'disponibilizados', para abusar mais uma vez do inevitável chavão. E os concertos da orquestra estiveram na lista dos programas mais baixados no começo do ano.

O download digital parece, portanto, que vai se tornando rapidamente o principal meio de comercialização de música, seja clássica ou popular. Para a indústria, significa uma solução nada mal: você fica só com a parte legal da coisa, a produção musical propriamente dita. E depois coloca os arquivos na internet. E esquece toda aquela parte chata: prensar as bolachinhas, as capas, colocar tudo dentro das caixinhas (sem esquecer da capinha de celofane), despachar para as lojas e, last but not least, correr o risco de amargar um tremendo mico porque o que o produtor achou que ia pegar não colou.

Com o download digital, baixa quem quiser, quando quiser, paga por download, e se for sucesso, valeu. Se não for sucesso, o produtor não amarga aquele milhão de discos plásticos sem nenhum outro uso a não ser, talvez, como bolacha de chopp.

Portanto, ao que tudo indica, pode começar a se despedir do CD: os seus dias estão contados.

29 junho 2006

A França não é um país sério

França e Brasil têm mais coisas em comum do que supõem os enciclopedistas

Entrou para a história como sendo do general Charles de Gaulle a célebre (e tão repetida) frase ‘o Brasil não é um país sério’. Pois a Wikipédia, a enciclopédia livre da internet, agora afirma que quem falou isso na verdade não foi o irrascível presidente francês, mas sim o então embaixador brasileiro Carlos Alves de Souza. O verbete esclarecendo tudo parece ter sido escrito por alguém muito por dentro da história, provavelmente o próprio Luiz Edgar de Andrade, correspondente do 'Jornal do Brasil' em Paris na época, e citado como o jornalista que ouviu a frase do embaixador brasileiro. Esta é a grande vantagem da Wikipédia: todo mundo colabora, não é escrita apenas por uma meia dúzia de enciclopedistas iluminados (ou iluministas?). (Veja o verbete de citações do general francês). Pra quem não se lembra, Luiz Edgar de Andrade foi um grande repórter, e que durante muito tempo publicou uma coluna no 'Pasquim' chamada 'Um pau-de-arara ao redor do mundo', onde o jornalista nascido no Ceará contava suas aventuras como correspondente estrangeiro. Aliás, por onde andará o Luiz Edgar de Andrade? Cartas para a redação.

Bem, depois de passar uns dias em Paris cheguei à conclusão de que a França também não é um país sério. Vejam só: em menos de uma semana peguei três grandes festas. Primeiro, a festa da música, que acontece todo ano, no dia 21 de junho: é um dia inteiro em que Paris é tomada por conjuntos, bandas e grupos tocando os mais diversos gêneros, do jazz ao rock, passando pelo clássico e pelo reggae, em um evento promovido pela prefeitura, e que tem a adesão entusiástica da população. Você dobra uma esquina, tem uma banda tocando Pink Floyd ou Deep Purple; vira a esquerda e tem uns malucos de pijama tocando jazz; ali na frente tem uma galera de trancinha no cabelo tocando reggae e fumando uns cigarros estranhos.

O curioso é que, apesar de todo nacionalismo francês, predomina a música americana: muito rock, pop e jazz. Vale lembrar que os franceses são fanáticos por jazz e gente como Miles Davis, Chet Baker e Dexter Gordon fizeram parte de suas carreiras na França. Há pelos menos duas ótimas rádios de jazz em Paris transmitindo em FM: a FIP (105,5 MHz) e a TSF (89,9 MHz). "Tout le jazz, tout les emotions", é o sugestivo bordão da TSF.

Depois peguei a Parada gay de Paris (leia abaixo).

E finalmente, a festa da vitória da seleção francesa. Era mais ou menos 11 da noite quando o jogo acabou. Até então Paris parecia São Paulo ou Rio em dia de jogo da seleção: pouquíssima gente na rua. A maioria vendo os jogos nos telões instalados em tudo quanto é café. Inclusive este que vos fala, que acompanhava tudo em um delicioso bistrô, perto da Bastilha. Há muitos restaurantes e bares na região, inclusive o Area, muito frequentado por brasileiros.

Quando o jogo acabou, a multidão enlouqueceu, e como acontece nestas ocasiões, tomaram a Bastilha. Alguns chegaram a invadir o famoso monumento, pulando a grade. A polícia chegou em minutos e quando parecia que ia dar confusão, foram embora: acho que perceberam que não ia adiantar; milhares de pessoas já tinham tomado o monumento e o largo, uma das vias mais importantes da cidade, virtualmente parando o trânsito, para desespero dos motoristas desavisados.

O mais divertido é que nessas ocasiões históricas sempre tem um casal se beijando romanticamente, como nos filmes. A multidão grita ‘Zizu, Zizu’, o apelido carinhoso de Zidane, o grande herói da partida. No metrô, dois franceses fazem o que parece ter se tornado a brincadeira favorita do momento: um imita uma tourada e o outro um galo, o símbolo da seleção francesa, zombando dos espanhóis. Aplausos da platéia improvisada na plataforma do outro lado dos trilhos. Senegaleses entusiasmados, com a camiseta azul e branca, entram no vagão do metrô gritando ‘vive la France’, ‘vive Senegal’, para felicidade geral da galera. Muita gente cantando ‘A marselhesa’. Enfim, Paris foi tomada por um carnaval, o terceiro em menos de uma semana.

Mas a França é parecida com o Brasil também por outro motivo: o ridículo dos seus políticos. O presidente Jacques Chirac apareceu na TV na terça-feira para apoiar mais uma vez o desmoralizado primeiro-ministro Dominique de Villepin. Foi ridicularizado por toda a imprensa, do Le Monde, ao Le Figaro, passando pelo Libération. Para muitos, já está mais do que na hora de Chirac pendurar as chuteiras. Aos 73 anos, em seu segundo mandato, Chirac vive um clima de ‘fin de règne’, e vem colecionando derrota sobre derrota: em maio de 2005 perdeu o plebiscito sobre a constituição européia, e teve de demitir o premiê Jean-Pierre Raffarin. Depois perdeu os jogos olímpicos de 2012 para Londres, enfrentou um levante nos subúrbios pobres a leste e ao sul de Paris, e a humilhante derrota da lei do emprego. Finalmente, veio o escândalo Airbus, cujo presidente da empresa vendeu ações na véspera de anunciar o atraso na produção do novo super-jumbo A380, o que fez as ações da companhia desabar.

Enfim, a França não é um país sério. E pensando bem, tem muita coisa em comum com o Brasil.

11 junho 2006

Vendo a copa em Salem, Massachusetts

Nosso repórter conseguiu assistir ao segundo tempo de Irã e México no bar do hotel. Mas não foi fácil

SALEM, MASSACHUSETTS, 11 de junho de 2006. Antes que alguém pense que vim pra cá com objetivos puramente consumistas, gostaria de esclarecer que o propósito da minha viagem é antes de tudo cultural: saber como é assistir a copa do mundo de um lugar bem diferente. Como, digamos, Salem, Massachusetts.

Enquanto em Nova York há bastante gente interessada nos jogos, em Salem, no coração da Nova Inglaterra, não é bem assim. Nova York é tão diversa do ponto de vista cultural e étnico que sempre tem algum café peruano, italiano ou thai onde a TV está mostrando jogo. Já aqui em Salem a TV do bar do hotel só fica no basebol. Hoje no almoço peguei Irã e México pela metade e quis saber como andava a coisa. “Tá bom o jogo?”, perguntei ao gerente. “Não vejo isso”, foi a sua displicente resposta, como se tratasse não de uma copa do mundo, mas de uma final do campeonato goiano. Ainda por cima, a TV estava sem som. Percebi que o momento era grave. Tinha que agir rápido. Protestei.

Felizmente o destino veio em minha ajuda. Um garçom mexicano apoiou e aumentamos o volume. Foi bem no momento em que o México virou o jogo, fazendo dois gols. Mas foi só acabar os 90 minutos e a TV voltou para o basebol. Reclamei de novo: será que não teríamos direito sequer aos melhores momentos da partida? Reprise dos gols? Comentários da Soninha? Pano verde? Nada. Direto para o basebol, esporte que jamais entendi: parece que tem mais ensebação que jogo propriamente dito. Eles ficam ali, ensaiado, ensaiando, a bola rola mesmo no máximo uns 5 minutos. E o lance mais emocionante é... quando a bola sai. Aí todo mundo fica ‘nuts’.

Por falar nisso, o Financial Times da semana passada trouxe um guia sobre como os chefes devem lidar com os subordinados durante a copa. Vale lembrar que o venerável jornal é publicado na Inglaterra, país onde as pessoas são normais, isto é, loucas por futebol. Segundo o jornal não vai adiantar proibir levar TV para o escritório. Esta é a primeira copa que está sendo integralmente transmitida através de streaming video na internet. Portanto, a maioria dos funcionários vai estar com os olhos grudados no computador, fingindo que está trabalhando. O colunista Jonathan Guthrie cita Roger Mosey, o diretor da esportes da BBC, para quem vai ser possível 'trabalhar e assistir ao mesmo tempo os passes da seleção alemã'. O colunista ironiza: 'Mr Mosey pode se submeter a uma equipe de neurocirurgiões cujos monitores estejam transmitindo cada lance de Estados Unidos e Tchecoslováquia. Eu não'. Em tempo: o artigo foi publicado antes do jogo em que EUA foram surrados pelos tchecos. Comentário da versão americana do Galvão Bueno na CBS News: 'Os americanos jamais vão se recuperar desta derrota'. Depois eu conto mais, inclusive como o jogo foi visto no Quincy Market, em Boston. Ou melhor, como não foi visto.

08 junho 2006

Um negócio de 499 dólares

Nosso repórter envia de Nova York a primeira de uma série de reportagens

NOVA YORK, 8 de junho de 2006 - A razão da minha vinda à Nova York é que resolvi comprar uma câmera digital nova para o meu FotoBlog. Era tempo: minha velha e surrada Sony P50 (dois megapixels) já deu o que tinha que dar. Pesquisando preços na internet descobri que a Sony W7 está por 250 dólares aqui nos Estados Unidos. Enquanto no Brasil... bem, achei por até 2 mil reais. Pensei que valia mais a pena vir pra cá, visitar minha amiga Gláucia, comprar a tal da W7, e aproveitar para rever amigos e a cidade onde morei dois anos, entre 1989 e 1991.

Cheguei hoje de manhã e fui logo comprando as coisas básicas. Primeiro, um guarda-chuva, já que o tempo está horrível. Depois, um novo cartão SIM para o meu celular GSM virar um pré-pago local. Então descubro que a TIM (também conhecida como ti-enganei) simplesmente 'trava' os aparelhos habilitados no Brasil, impedindo assim de usá-lo em outros países localmente, que é a grande vantagem do sistema GSM. Com o celular travado da TIM você tem de usar o caríssimo roaming internacional se quiser falar com o vizinho da esquina. Mas Dona Sima, a indiana da Wireless Shop, na Segunda Avenida com a 90, disse que ia dar um jeito. Deixei o meu com ela, e peguei um T-Mobile emprestado (é uma das operadoras GSM dos Estados Unidos). “Vou ter que fazer algumas mudanças no software”, disse Dona Sima.

Fui então atrás da tal da W7. Tanto na Circuit City como na Best Buy, duas mega cadeias de eletrônicos, sou informado que a W7 agora está em 'backlog'; quer dizer, só por encomenda. O fato é que a Sony não está dando conta da demanda; é preciso encomendar e aguardar pelos menos dois dias.

Então fui a B&H, a sucessora da antiga 47th Photo, a melhor loja de equipamento fotográfico de Nova York, aquela famosa dos judeus ortodoxos. Nada da W7. Que fazer, como diria Lênin. Há tantas alternativas hoje em dia que é difícil escolher. Felizmente, nós, brasileiros, temos uma vantagem: como o limite da alfândega é 500 dólares, já é um parâmetro. Enquanto nossas autoridades se preocupam com o problema de controlar os brasileiros para que não gastem mais do que 500 dólares em eletrônicos no exterior, empresas como a Sony estão aproveitando a febre das câmeras digitais e não dão conta da demanda de um modelo que já tem alguns anos. E vão espalhando fábricas por dezenas de países do Sudeste Asiático. Minha antiga P50 foi fabricada na Tailândia.

Acontece que há agora uma nova categoria de câmeras, intermediárias entre os modelos amadores (como a W7) e as SLR, as Single Lens Reflex, os modelos digitais que substituiram as Nikons e Pentax 35 milímetros de antigamente. As SLR digitais estavam custando bem mais de mil dólares, mas recentemente o preço começou a cair. Mas ainda não chegou aos 500 dólares, que é o máximo de tecnologia que um brasileiro comum pode ter.

Já a nova categoria intermediária (que vem sendo chamada de superzoom) está justamente na faixa dos 500 dólares. Elas têm uma série de recursos profissionais, boas lentes, 7 megapixels de definição, e um preço razoável. Li uma ótima resenha na revista Photography sobre a recém-lançada Sony H5 e descubro que está por 499 dólares na Circuit City (estava esgotada na B&H). Amanhã, depois de pegar meu celular devidamente destravado, vou na Circuit City buscar minha H5.

E, claro, vou guardar a nota fiscal com todo o respeito, para provar para as autoridades alfandegárias que sou um brasileiro zeloso do bom cumprimento da lei.

06 junho 2006

Encontros e desencontros

Existe alguma coisa mais intrinsecamente moderna do que um aeroporto? Pense no seu aeroporto preferido. Uma infinidade de sistemas tecnológicos funcionam ao mesmo tempo, 24 horas por dia: balcão de check in, cartão de embarque, segurança, vigilância eletrônica, sistemas de indexação, bancos de dados etc.

Por isso, o aeroporto é um ícone de sociedade moderna e tecnológica. Quem diz é Thomas Misa, do MIT, em um livro muito bom chamado Tecnologia e modernidade. Misa, um pensador interessado no impacto da tecnologia na sociedade contemporânea, lembra ainda outros componentes importantes e característios da moderidade que reinam nestes lugares: placas em inglês, alto grau de consiência do tempo, padrões globais.

Conscientes de como o avião tornou-se um ícone da modernidade, os futuristas italianos, estes precursores do modernismo estético, falavam em "estes maravilhosos aviões que furam o céu".

O aeroporto também pode ser pensado como um processo de produção altamente moderno onde, de um lado, entram passageiros, comida, bebidas, combustivel. Do outro, saem lixo, restos do lavatório... E claro, poluição.

Estes reflexões me vêm agora, em pleno Aeroporto de Guarulhos, onde batuco estas mal traçadas linhas antes de embarcar para Nova York, de onde estarei atualizando este blog na próxima semana.

Outra coisa que se pode fazer nos aeroportos atualmente é consultar a internet, e até atualizar um blog. Dá um pouco mais de sentido àqueles momentos indefiníveis de espera de um vôo, quando nos sentimos sozinhos e desolados como Bill Murhay em Encontros e desencontros, o genial filme de Sofia Copola.

Como símbolo da modernidade, o aeroporto nos faz sentir como seres anônimos nessa profusão de padrões globais, impessoais, altamente racionais (e atualmete um pouco paranóicos) que imperam nesses lugares.

A única coisa que foge do padrão global, e dá um tom prosaico à cena, é um paraguaio aqui atrás de mim, que berrando no microfone do skype, está fazendo toda a confirmação de sua viagem, em alto e bom espanhol, pra todo mundo ouvir. Pelo jeito, ele vai dar a volta ao mundo. Se não fosse por nós, latino-americanos, a modernidade seria muito monótona.

02 junho 2006

Depois daquele beijo

Pode ser que eu tenha assistido demais Depois daquele beijo, o título besta que mereceu por aqui Blow-Up, o filme de Michelangelo Antonioni de 1966. Revi recentemente em DVD, e ainda ‘impressiona’, como diz o lugar comum usado e abusado pela mídia. (Fala sério: depois do valerioduto, mensalão, do caso Suzane von Richthofen e dos famigerados irmãos Cravinhos, ainda tem alguma coisa que impressiona? Não seria a hora de passarmos para, sei lá, expressiona)? Checando na internet, lembro que é baseado em um conto do Julio Cortázar. Segundo o site do IMDB, o conto Las babas del diablo. Mas de qual livro? Não achei em nenhum dos que tenho do venerável escritor argentino.

O filme é sobre um fotógrafo bem sucedido e meio sádico, chamado Thomas (interpretado pelo já falecido David Hemmings). Ele resolve fazer umas fotos em um parque de Londres quando por acaso acaba flagrando um casal se beijando (as famosas cenas foram rodadas no Maryon Park, e não em Hampstead Heat, como reza a lenda).

O fotógrafo, como todo personagem de Antonioni, é um outsider, um anarquista que usa a câmera como uma espécie de arma pra praticar, vamos dizer, uma inútil subversão do mundo lá fora. Maltrata as modelos (as então famosérrimas Twiggy e Veruschka), e usa a câmera como se fosse, bem, lá vai mais lugar comum, símbolo fálico.

Ao fotografar o casal se beijando, Thomas invade, digamos assim, a intimidade da moça (Vanessa Redgrave). Hoje daria processo por assédio. Na época, foi um escândalo, criticadíssimo pela esquerda, para quem tudo não passava de existencialismo pequeno burguês. Ficou sendo a obra mais famosa do diretor italiano, mesmo que depois tenha feito obras primas como Profissão repórter, de 1975, com Jack Nicholson e Maria Schneider.

Ao ampliar e ver os detalhes com uma lupa, Thomas descobre que houve um crime atrás do casal que ele estava fotografando. Ao revê-lo hoje é curioso notar como as Nikons e Hasselblads, muito modernas para os anos 60, ficaram obsoletas: tudo substituído por câmera digital, Photoshop, computador, FotoBlog.

Bom, não sei se me deixei influenciar (vi tantas vezes, a primeira, ainda adolescente, no Bijou; curioso notar também como era ruim a projeção; Blow-Up, pasmem, é colorido!), mas desde que comecei a andar com a câmera digital, não consigo mais passar na frente de um parque sem fotografar.

O último foi o Parque Modernista, na Vila Mariana: quando vi, já estava lá, fotografando. A casa modernista, esta sim, expressiona.

01 junho 2006

A casa sem cor de Gregori Warchavchik

A casa sem cor de Gregori Warchavchik, por exemplo, expressiona. Pelo abandono, pelas ruínas em que deixaram se transformar um marco da arquitetura. Desde sempre ouço falar na casa modernista do famoso arquiteto nascido em Odessa, na Ucrânia, em 1896, e que foi responsável por vários projetos importantes. Entre eles as sedes dos clubes Paulistano, Pinheiros, Hebraica e Tietê, em São Paulo, do Iate Clube em Santos, e muitos outros. E principalmente, a sua célebre casa modernista, onde morou com a mulher, Mina Klabin. Como paulistano típico, nunca tinha ido.

Finalmente, em uma tarde de maio, fui conhecer. Como o fotógrafo de Antonioni, sempre armado com a minha câmera.

Warchavchik morreu em 1972, e desde então a casa está ao deus dará. Só sobrou o fantástico jardim que cerca a residência, que foi parcialmente restaurado. A casa está detonada, fechada para reforma, cercada de tapume por tudo quanto é lado. Mal dá pra ver a piscina, através de uma janela aberta na madeira. Mais precário que o zoológico de Niterói.

Em qualquer país menos dado ao desperdício, estaria lotado de turistas comparecendo firmes na bilheteria. Aqui, claro, estava ameaçado de virar shopping, quando foi tombado em 2004 pelo governo do Estado de São Paulo. Virou o Parque Modernista.

O jardim em volta da casa 'impressiona' com sua atmosfera e áura misteriosa. Mas a casa em si continua aguardando uma boa alma empresarial para ser restaurada. Lugar ideal para um fotógrafo existencialista passear (e fazer fotos...) Mas pensa que tinha muita gente? Meio deserto, a não ser por uma galera jovem, que ensaiava com uma filmadora digital. (Entre eles, a garota loira que aparece nas fotos). Talvez algum candidato a Antonioni.

Entendo, o estado tem suas prioridades: saúde, educação, segurança. (Aliás, deu pra ver o quanto tem sido investido em segurança ultimamente...) Mas e a iniciativa privada? O Instituto Moreira Sales, por exemplo, transformou a antiga casa da família, no bairro da Gávea, no Rio, em centro cultural. Fica lotado. Por que alguma empresa não investe na casa modernista de Warchavchik através das leis de incentivo fiscal? É retorno garantido.

No Natal do ano passado vi uma empresa de cartão de crédito fazendo um marketing pra lá de ridículo: botaram umas modelos passeando por aí, com sacolas de compra com o logo da empresa penduradas no ombro. Pareciam uns outdoors ambulantes. Por que não bancar a restauração da casa expressionista? Digo, modernista.

Veja as fotos do Parque Modernista.

29 maio 2006

Hoje tem circo? Tem, sim senhor!

Circo: tem coisa mais legal? O Circo-Escola Picadeiro deu uma canja na Praça das Jabuticabas, durante a Virada Cultural promovida pela prefeitura (veja as fotos). A Nossa Praça das Jabuticabas é um projeto muito interessante cujo objetivo é revitalizar uma praça do bairro da Aclimação, que estava abandonada.

Esta praça tem uma história curiosa: durante décadas foi a garagem da CMTC onde ficavam estacionados os trolebus da tradicional linha Cardoso de Almeida - Machado de Assis, que circula ainda hoje.




Nos anos 90 a garagem foi demolida e no lugar erguida uma praça, que ficou meio largada. No ano passado, o instituto A Casa, uma ONG ligada à saúde mental e psicossocial que funciona perto da praça, resolveu ‘adotá-la’. Hoje acontecem atividades durante os fins de semana, tais como oficinas de arte, capoeira, música e teatro para as crianças.

No final de semana retrasado a praça foi incluída pela primeira vez na Virada Cultural, com apoio da subprefeitura da Vila Mariana, e recebeu o Circo-Escola Picadeiro, uma galera da pesada.

Taí um bom exemplo de cidadania participativa.

(Veja as fotos do domingo de circo na Praça das Jabuticabas)

19 maio 2006

Na frente de batalha

Repórter penetra em área de segurança do quartel-general de organização criminosa

Fui enviado ao Shopping Iguatemi, notório ponto de encontro da perigosa facção criminosa conhecida como 'minoria branca', depois que o governador Cláudio Lembo encontrou os culpados pela violência em São Paulo.

Antes porém, zeloso dos meus deveres de bem informar ao público, fui na Internet conferir. No IBGE teen, o site educacional do IBGE destinado aos adolescentes, descobri que o governador cometeu uma imprecisão (um lapso gramatical, talvez): na verdade a 'minoria branca' é 52% da população brasileira.

Desfeito o mal entendido, fui ao Shopping Iguatemi fazer compras para passar por um típico consumidor da 'minoria branca': um bloco de notas e uma caneta na papelaria Info-Paper & Co, no piso térreo. E então, usando toda minha experiência de jornalista investigativo, tentei identificar qualquer vestígio de ação criminosa.

O experiente fotógrafo René Bresson, veterano de muitas coberturas jornalísticas internacionais (e ganhador de um prêmio Ipiranga de fotojornalismo) levou sua câmera-celular disfarçada de sapato e fotografou áreas de segurança máxima, como o estacionamento VIP.

Cláudio Lembo havia dito também à Folha de S. Paulo que 'a burguesia terá de abrir a bolsa'. Mas pude constatar que é só isso que eles fazem, governador. É um consumismo só: é um tal de pão de queijo recheado com requeijão e molho de azeitona, empadinha de palmito, tênis Nike, esfiha de carne, de queijo e de espinafre, TV de plasma pra assistir a copa, suco de acerola com laranja, camisa Lacoste, e o diabo a quatro.

E telefone celular, governador, muita gente comprando, trocando, fazendo upgrade para os novos modelos, cada vez mais modernos. Alguns fazem até conference call. Celular, governador, celular. Caiu a ficha?



Devido a importância do celular nos últimos acontecimentos, minha primeira suspeita mais séria recaiu sobre a Boutique dos Eletrônicos, no piso inferior, onde há anos compro tudo em matéria de acessórios para o computador. Marcelo, o vendedor, é muito bem informado em matéria de eltrônicos (foto). Se o senhor estiver precisando de um consultor em matéria de celular, governador, é com ele mesmo.

Prosseguindo na minha árdua missão, achei muito suspeito o bebedouro para cachorros no estacionamento VIP. E mais estranho ainda, apesar de lotado de seguranças, o René fotografou a vontade. Fingia que estava falando com alguém ao celular, ou que estava checando torpedos, e fotografava. Parecia o Maxwell Smart, o Agente 86, com a sua câmera disfarçada no sapato.

De repente percebi que tinha muita gente da 'minoria branca' falando ao celular com um ar levemente conspiratório. O que eles estariam tramando? Um café no quiosque do Viena? Um rodízio de pizza no Rascal? Cheesburger no América? Estariam em conference call com outros shoppings de São Paulo? Aí tem coisa, governador.

Depois de muito matutar cheguei a conclusão de que o líder da facção criminosa só pode ser o Joaquim, da barbearia Ringo, que sempre fala mal do governo quando corta o meu cabelo. Se eu fosse o senhor, governador, mandaria um jatinho da PM para negociar com ele.

E por via das dúvidas, mandaria bloquear o sinal do celular em todos os shoppings da capital.

(Veja fotos ultra secretas feitas com celular em áreas de segurança máxima dos Shoppings Iguatemi e Villa Lobos)